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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Made in USA - "Guia dos Playoffs - NFL"


Nesta quarta feira, a coluna "Made in USA", do advogado Rafael Rafic, coloca as possibilidades de ida aos playoffs da NFL, a liga de futebol americano. Neste domingo se realiza a última rodada da temporada regular e estarão definidos os times que seguem na competição.

Apesar das possibilidades remotas demonstradas pelo colunista, na minha opinião o New York Giants (acima), equipe atual campeã e pela qual torço, está fora. O time pagou por uma péssima segunda metade da temporada, bem como alguns deslizes fatais e excesso de contusões.

A bipolaridade da equipe é assustadora, capaz de "amassar" 49ers e Packers e levar de zero do Atlanta. Talvez a equipe precise trocar de técnico, a meu ver.

Passemos à coluna.

Guia dos Playoffs - NFL

Com o fim do ano, também chega o fim da temporada regular do Futebol Americano e é justamente para acompanhar a última semana de jogos antes dos playoffs nesse final de semana antecedente ao ano-novo é que criei esse guia rápido, resumindo para que cada time luta nessa última semana.

Para quem ainda não sabe, a NFL (liga de futebol americano) é dividida em duas conferências. Cada conferência por sua vez é dividida em quatro divisões (norte, sul, leste e oeste). Os campeões de cada divisão,k além dos dois outros melhores times dentro da conferência (os wild-cards) se classificam para os playoffs, que começam em 05 de janeiro.

O interessante da última NFL é que quase sempre, mesmo para os times já classificados, tem algo para o qual se lutar. Quanto melhor a posição do time dentro da conferência, mais benefícios ele tem.

Basicamente se disputa inicialmente para ter vantagem de mando de campo para todo o playoff (dado para o campeão de divisão com melhor campanha em cada conferência), pelo bye na primeira rodada dos playoffs (dado aos 2 melhores campeões de divisão em cada conferência), pelo título da divisão (que dá além da vaga nos playoffs, mando de campo apenas no primeiro jogo dos playoffs) e pelo wild-card (as últimas vagas disponíveis para os playoffs).

[N.do.E.: isto é uma vantagem relativa: na temporada passada os Giants fizeram apenas um jogo em casa nos playoffs. Deu no que deu, o título.]

Vamos então ao resumo do que cada time disputa nessa semana 17 da NFL.

Conferência Americana (AFC)

Mando de campo total

Houston Texans: apesar de empatado com o Broncos com 12V e 3D, o Texans ganhou o confronto direto na Semana 3 e por isso só depende de si para garantir o mando de campo total na AFC: basta ganhar do Indianápolis Colts, fora de casa. O problema é que o Colts está muito bem, mesmo sem Peyton Manning, e tem 10V e 5D. O ponto positivo para o Texans é que o Colts não almeja nada na semana 17 e deve descansar o time para o primeiro jogo dos playoffs.

Se perder, ainda pode torcer pelas derrotas de Broncos e Patriots (abaixo) que ainda sim ficaria com o Mando de Campo Total. Se apenas um dos dois perder, ainda fica com o segundo bye na primeira rodada. Mas se o Texans perder e Broncos e Patriots ganharem, nem bye terá: terá que se contentar somente com o título de divisão.

Denver Broncos: basicamente tem que torcer pela derrota do Houston Texans. Além disso tem que ganhar seu próprio jogo, mas enfrentando em casa o pior time do ano na NFL, o Kansas City Chiefs (2V 13D), isso não deverá ser difícil.

Se por um acaso conseguir a façanha de perder para o Chiefs, não terá qualquer chance de mando de campo total e ainda terá que torcer pela derrota do Patriots para não perder o segundo bye na primeira rodada.

New England Patriots: precisa vencer seu jogo em casa contra o Miami Dolphins, freguês de carteirinha do Patriots, e torcer para as derrotas de Texans e Broncos. Se só um dos dois perder, ainda terá o segundo bye na primeira rodada.

Se perder para o Dolphins, terá que se contentar com o título da divisão.

Segundo Bye na Primeira Rodada

Os dois byes estão sendo disputados por Texans, Broncos e Patriots, como já explicado acima.

Títulos de Divisão

AFC East: já garantido pelo New England Patriots
AFC North: já garantido pelo Baltimore Ravens
AFC South: já garantido pelo Houston Texans
AFC West: já garantido pelo Denver Broncos

1° Wild-Card

Já garantido pelo Indianápolis Colts

2° Wild-Card

Já garantido pelo Cincinnati Bengals (para mim candidatíssimo à derrota na primeira rodada dos playoffs).

Conferência Nacional

Mando de campo total

Já garantido pelo Atlanta Falcons (alias, apesar de ter a melhor campanha com 13V e 2D, teve jogos muito fáceis e é outra aposta minha para perder em seu primeiro jogo nos playoffs).

Segundo Bye na Primeira Rodada

Green Bay Packers: com a derrota do 49ers no último domingo de madrugada, os Packers tornaram-se senhores de si: basta ganhar seu jogo contra o Vikings, fora de casa. Seria um jogo tranqüilo, não fosse a forte rivalidade entre os dois times.

Se perder ainda pode torcer pela derrota do 49ers, que manterá o direito do bye.

San Francisco 49ers: precisa ganhar do Arizona Cardinals em casa e torcer pela derrota do Green Bay Packers para ficar com o bye.

Se perder, além de não ter chances de bye, precisa se preocupar com o título de divisão (detalhes abaixo).

Seattle Seahawks: precisa ganhar em casa do Saint Louis Rams e torcer por derrotas de Packers e 49ers.
Se perder, será automaticamente Wild-Card.

Títulos de divisão.

NFC East:

Washington Redskins: fará um confronto direto em casa contra o seu adversário direto, o Dallas Cowboys. Quem ganhar levará a divisão no jogo, que será às 23 horas do próximo domingo, com transmissão da ESPN. Caso o Redskins perca, na verdade empata com o Cowboys, mas o desempate é favorável ao Dallas.

Se perder ainda terá chances de ser o segundo Wild-Card, se o Vikings e o Bears perderem (abaixo)

Dallas Cowboys: como dito, decidirá a divisão em campo contra o Redskins fora de casa.

Porém, diferentemente do Redskins, a derrota significará o fim de qualquer chance de classificação aos playoffs.

NFC North: já garantido pelo Green Bay Packers
NFC South: já garantido pelo Atlanta Falcons

NFC West:

San Francisco 49ers: só precisa de si: basta  ganhar o Arizona Cardinals (5V e 10D) em casa.

Se perder, precisa torcer para a derrota do Seahawks para ficar com o título da divisão. Caso contrário será apenas Wild-Card

Seattle Seahawks: precisa ganhar em casa do Saint Louis Rams (7V 7D 1E) e torcer para 49ers perder.

Se perder, será apenas Wild-Card.

Primeiro Wild-Card

Já garantido pelo Seattle Seahawks ou San Francisco 49ers: quem perder a NFC West.

Segundo Wild-Card

Minnesota Vikings: só depende de si: basta ganhar em casa o Green Bay Packers. O problema é derrotar o Packers, que ainda estará lutando pelo segundo bye. Jogo bem complicado para o Vikings.

Se perder, precisa torcer pelas derrotas de Bears, Cowboys e Giants para ficar com a vaga.

Chcago Bears: precisa vencer fora de casa o Detroit Lions (Bears é bastante favorito) e torcer pela derrota do Minessota Vikings.

Se perder, estará fora dos playoffs.

New York Giants: como sempre, Giants irá para a última rodada precisando de um milagre para se classificar aos playoffs. O problema é que, se deixarem classificar, como é um time de chegada, já vira postulante ao título. Foi exatamente após um milagre de última rodada que o Giants se classificou ano passado - e no final levou o título.

Mas para se classificar, antes de tudo, o Giants precisa fazer a sua lição e ganhar em casa do saco-de-pancadas Philadelphia Eagles. Além disso, precisa torcer pelas derrotas de Vikings, Bears e Cowboys. Se qualquer um desses três ganhar, o Giants estará eliminado.

É claro que se o Giants perder estará automaticamente eliminado.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Bissexta - "A Onda Azul"


Retornando após curtas férias, a coluna “Bissexta”, do advogado Walter Monteiro, conta a experiência de assistir no estádio a uma partida da NFL, a liga de futebol americano.

Em tempo: os Dolphins perderam por 23 a 16 na partida realizada no último domingo (foto).

A Onda Azul

Se o leitor veio aqui achando que eu ia falar da eleição do Flamengo, pode dar meia-volta, volver. Até falarei de futebol e posso ligeiramente tocar no assunto do Mais Querido; mas o tema aqui é futebol americano, uma das minhas paixões. Tema, aliás, que já tratei aqui em outra ocasião, mas me deu vontade de falar de novo.

Uma segunda lua-de-mel, para comemorar meus 10 anos de casamento repetindo a viagem do ano zero me deu a chance de voltar ao Sun Life Stadium, casa do Miami Dolphins. Este é um time que adora frequentar o meio da tabela para baixo, mas que ainda assim eu faço questão de simpatizar (porque torcer, de verdade, eu só torço pelo Flamengo e pela Seleção Brasileira).

Não é à toa que eu gosto do Dolphins.

O primeiro jogo que eu vi de futebol americano eu estava em Miami (na época a NFL não era transmitida para o Brasil) e Dan Marino estava no auge. Se o leitor não sabe quem é Dan Marino, por favor: vá ao Google e só depois volte. Dan Marino é uma espécie de Zico, excepcionalmente bom, mas que nunca ganhou um Super Bowl - assim como o Galinho nunca ganhou uma Copa do Mundo.

[N.do.E.: bom, Eli Manning (NY Giants), que muitos críticos dizem que não é um quarterback “de elite”, tem dois Superbowls, ambos sendo escolhido o MVP (melhor jogador, em tradução livre) da partida. Críticos estranhos, esses...]

E dessa vez eu tive a sorte de estar no Sun Life Stadium justamente no jogo mais importante da temporada.

A partida é contra o New England Patriots, o timaço da cidade de Boston onde o astro principal é o ‘Sr. Gisele Bundchen’ e que todo ano é amplo favorito a faturar o título da “chave” que o Miami disputa - e assim frear a chegada dos golfinhos da Florida aos playoffs.

Quase ninguém vai ao estádio sem estar devidamente fardado com o uniforme do time e não seríamos nós que pagaríamos esse mico indo ao jogo sem estar de verde, branco ou laranja, as cores dos locais. Custaria uma pequena fortuna comprar as camisas de jogo, então eu escolhi para mim uma estilo polo, de comissão técnica.

A Flavia, minha esposa, já tinha a dela desde a outra visita: uma espécie de réplica da camisa de jogo homenageando o demitido quarterback Chad Henne - um jogador bem fraquinho, de triste passagem pelo time. É mais ou menos como ir ao Maracanã em 2012 com uma camisa do Flamengo com o nome do Josiel ou Denis Marques, mas a Flavia não se liga nessas coisas: tirou uma foto minha na estátua do Dan Marino e desconfio que ela nem saiba de quem se tratava.

Ainda tivemos uma pequena discussão, pois o jogo começava às 13h e às 10h eu já queria estar por lá, com ela insistindo que era muito cedo. Chegamos 10h30min e foi aí que a onda azul me impressionou...

Já no estacionamento, hordas de torcedores de New England paramentados com suas camisas azuis, em suas animadas tailgates parties - literalmente, festas da porta traseira. O ritual consiste em abrir a tampa traseira do veículo e fazer um piquenique, com muita cerveja, churrasco, cachorro quente, uísque e o que mais couber.

Um pouco mais tarde, do alto do estádio, olhava um mar azul de torcedores visitantes, que aproveitaram o calor da Florida para fugir do rigoroso inverno de Massachussetts e embalar o time em busca de mais uma vitória.

Essa cena já tinha me chamado atenção no jogo a que assisti dois anos atrás, mas dessa vez foi demais. Quando eu cruzei o túnel da arquibancada, faltando 20 minutos para o jogo começar, fui cutucado por um torcedor do Dolphins incrédulo, gritando: “oh my god, Patriots fans everywhere!” (Meu Deus, há torcedores do Patriots em todo lugar!)

De fato, parecia que eu estava em uma arquibancada visitante: se contavam nos dedos os torcedores do time local. Claro que, com todos os lugares marcados e com os locais conhecendo melhor o estádio, os torcedores de Miami entram faltando 1 minuto para o jogo começar ou até depois da partida iniciada.

Aliás, a parte chata do futebol americano é que ninguém sossega: fica todo mundo andando para lá e para cá o tempo inteiro e ninguém se incomoda de ter a visão do jogo atrapalhada. Eu simplesmente deixei de ver um touchdown porque duas pessoas passaram bem em frente a mim em um momento crucial da partida, quando o correto era ficarem sentadas e esperar a conclusão da jogada. Fosse no Maracanã, daria confusão na certa.

Ainda que os torcedores de Miami, afinal, fossem a maioria da audiência, calculo que dos mais de 75 mil presentes pelo menos 20 mil eram torcedores dos Patriots.

É aí que eu me lembro do futebol brasileiro, com sua política estúpida de limitar a cota de ingressos de visitantes e sua mais ainda estúpida aura de violência que cerca o ambiente dos estádios. Ir ao jogo deve ser um lazer e não há nada mais divertido do que viajar horas e horas de avião, alugar um carro e ir a um estádio confortável só para torcer, sem risco de ser molestado ou agredido.

Essa lição a gente deveria aprender correndo. E para quem diga que isso é impossível, volto ao meu exemplo predileto: Inter x Flamengo, no Beira Rio. No dia que todos os jogos forem assim, futebol vai ser bem mais prazeroso de assistir.

Finalizando, algumas coisas que me impressionaram quanto ao jogo em si:

a) A estrutura de entretenimento do lado de fora. São muitas barracas de patrocinadores. Brinquei em uma roleta daquele estilo do Silvio Santos na barraca da Ford e um dos prêmios era uma "Sideline Pass", ou seja, um convite para assistir a partida DENTRO do gramado. Eu ganhei apenas um brinde (pude escolher entre uma mochila, uma camiseta, um chaveiro e um álcool gel: fiquei com esse último para ajudar na hora do cachorro quente), mas pouco depois vi um cara ganhar o passe e sair vibrando;

b) A loja. Completamente lotada e dando vontade de comprar muitas coisas. Acabei comprando uma pequena bolsa, de US$ 11.00, para guardar o celular, a carteira e o tal álcool gel;

c) Os preços. Estacionamento, DO OUTRO LADO DA RUA, US$ 25.00. Cerveja, de 300 ml: US$ 9.00. Um cachorro quente pequeno e frio: US$ 3.00. Durante o jogo tive que ir a uma sucursal da loja (cada andar tem uma) comprar um boné por US$ 35.00, o boné mais caro da minha vida – o jogo foi à tarde e em arquibancada descoberta, ou seja, sol forte;

[N.do.E.: um boné oficial do Flamengo, convertido pelo câmbio, dá pouca coisa menor que este valor.]

d) O senta/levanta. Ninguém para quieto. Toda hora alguém vai ao banheiro ou vai lá fora lanchar. O jogo é só um detalhe;

e) A diversidade. Embora o público seja preponderantemente masculino e adulto, tem muita mulher, muita criança, muito idoso.

f) A tal tailgate party. O outro jogo a que fui cheguei meio em cima da hora e era à noite. Nesse pude ver a quantidade de gente que se reúne no estacionamento. Os caras montam barracas imensas e ficam completamente embriagados antes do jogo começar (até para economizar na cerveja lá dentro). Da próxima vez, vou comprar um isopor e fazer o mesmo: beber cerveja lá fora.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Made in USA - "Paguem as Zebras"




Excepcionalmente nesta terça feira, a coluna “Made in USA”, do advogado Rafael Rafic, conta a enorme confusão ocorrida no início da temporada do futebol americano com a utilização de árbitros de várzea para suas partidas.

Paguem as Zebras

A Made in USA não poderia passar ao largo da polêmica que tomou conta das três primeiras semanas iniciais da temporada de futebol americano e hoje aborda mais uma trapalhada do comissário da NFL (algo próximo a um presidente), Roger Godell: a greve dos árbitros.

Os árbitros, assim como os jogadores, tem suas relações com a liga regidas por um contrato, profissional. O último contrato da associação de árbitros da NFL iria até o fim da temporada 2011-2012.

Como já se imaginava que seria uma negociação complicada, os árbitros estavam planejando usar uma cláusula contratual que possibilitaria a abertura de negociações um ano antes - ganhando tempo para se chegar a um acordo e evitar problemas.

Porém essa cláusula tornou-se inócua por causa da greve dos jogadores antes do início da temporada passada, que cancelou a negociação antecipada.

Eis que Roger Godell dá de novo o ar de sua (des)graça. Uma administração responsável e conciliadora de uma liga tão grande e que gira tanto dinheiro não se arriscaria fortemente por causa de uma causa tão pequena.

Parêntese: estamos falando de gastos em torno de US$4 milhões anuais para uma liga que ganha US$ 9 bilhões por ano. Mal comparando, é como se brigar por uma torneira no quarto de empregada de uma mansão de 30 quartos e 20 suítes.

Qualquer administrador sensato e conciliador, como Bud Selig (MLB, baseball), faria um contrato paliativo nos mesmos moldes do atual por um tempo curto (dois ou três anos). Assim se teria tempo de negociar pontos mais polêmicos de forma duradoura sem o risco de greve e lockout.

Mas Godell - e sua sanha por brigas sangrentas e desnecessárias - estressou a negociação com pontos extremamente polêmicos, como a mudança imediata do plano de aposentadoria (para um mais arriscado) para todos os árbitros, o aumento do número de equipes de juízes (o que representa redução de ganhos individuais) e a adoção de árbitros exclusivos da NFL por todo o ano sem a devida compensação. Atualmente os árbitros só ficam a disposição da NFL de agosto até o Superbowl.

Obviamente a associação chiou e o acordo não saiu.

Até que em julho/agosto, ficou claro que Godell adotou a estratégia de tentar esmagar os árbitros. Travou de vez a negociação e começou a contratar os “replacement umpires” (árbitros substitutos) numa tentativa de intimidar a associação e mostrar que os árbitros não eram tão necessários para o jogo como eles imaginavam.

Esses árbitros substitutos, de modo geral, vieram de ligas universitárias de futebol americano, que tem regras bastante diferentes da NFL. Além das regras diferentes, eles tem muito menos experiência e não estão acostumados com a repercussão e a importância dos jogos da liga principal. Mas o principal é que eles não tinham o menor respeito dos jogadores e técnicos.

[N.do.E.: mal comparando, seria como se trouxessem árbitros do campeonato de pelada dos porteiros do Aterro para apitar o Brasileirão.]

Traduzindo: a estratégia era ineficiente e tinha tudo para dar errado. E deu!

Nas duas primeiras semanas de jogo, foram vários lances polêmicos e várias lambanças da arbitragem em lances até fáceis, mas que na regra do futebol universitário seriam diferentes. Isso sem contar as milhares de faltas marcadas e não-marcadas erroneamente e a confusão total quando se tratava de desafios eletrônicos (inexistente nas ligas universitárias menores).

[N.do.E.: sem contar casos onde um árbitro foi retirado da partida pois era torcedor de uma das equipes e outro onde o juiz virou para um jogador e disse que esperava que ele fosse bem pois o tinha escalado em seu time de fantasy.]

Apesar dos vários erros, nada alterou o resultado de jogos. Houve apenas técnicos e jogadores ficando malucos com algumas decisões ridículas de árbitros e alguns casos de mal-estar, como no jogo de domingo à noite, transmitido nacionalmente em TV aberta.

Naquela ocasião a torcida de Baltimore começou a gritar em altíssimo som “Bullshit” após uma marcação errada no fim do jogo que poderia mudar o resultado da partida. Por sorte, deu tudo certo e o resultado não foi afetado.

Isso em inglês é um senhor insulto e, a exceção de jogos entre Yankees x Red Sox no baseball (um caso à parte de 90 anos de altíssima rivalidade, histórica e esportiva), em 10 anos de esportes americanos eu nunca tinha ouvido uma torcida americana xingar quem quer que seja, ainda mais os árbitros.

A torcida gritou tão forte que a TV não conseguiu esconder isso dos microfones, e tanto a transmissão americana quanto a brasileira não puderam ignorar, sendo obrigadas a comentar o incidente.

Alias, no Brasil a ESPN até criou uma hashtag para promover o fim da greve que fez relativo sucesso: a #paguemaszebras. “Zebras” é o apelido dos árbitros da NFL, que usam um uniforme listrado em preto e branco, bastante parecido com a pele do referido animal. [N.do.E.: ou com a camisa do Botafogo, o que, na prática, dá no mesmo.]

Porém era inevitável que uma grande besteira iria ocorrer mais cedo ou mais tarde e ela ocorreu na terceira semana, no jogo de 2ª feira à noite que encerra a rodada. Partida esta transmitida em rede nacional de TV fechada, mas de grande penetração (ESPN) entre Green Bay Packers e Seattle Seahawks.

Última jogada da partida. Packers ganhando por cinco pontos com o Seahawks no ataque. O Seahawks tenta um longo passe para o fim do campo, o “touchdown”, que daria seis pontos (mais o direito a um ou dois pontos extras, mas não vem ao caso).

O problema é que tanto defensor quanto atacante agarraram a bola e não largaram. Resultado: tinham dois árbitros na jogada, um marcou o touchdown e o outro, na mesma hora, marcou interceptação, quando o defensor pega a bola.  O vídeo está na abertura do post.

A jogada em tempo real é mesmo polêmica. Para isso, a NFL tem o desafio eletrônico, que permite aos árbitros olharem todos os ângulos captados para a TV em câmera lenta. Obviamente eles foram ver o replay.

Olhando o replay lateral (que também é transmitido no sinal da TV) é claro e evidente que o defensor do Packers teve controle da bola bem antes do atacante e a marcação correta nesse caso seria a interceptação e a vitória do Packers.

Além disso, antes da jogada houve uma falta de ataque não-marcada que invalidaria a jogada. Mas como faltas não são passíveis de verificação por replay, isso não foi revisto.

Foi uma surpresa quando os árbitros voltaram da cabine e mantiveram a chamada oficial de campo: touchdown.

A revolta foi generalizada. Houve gritaria enorme na imprensa reclamando que os “replacement” não poderiam ser deixados arbitrar jogos da NFL. Os jogadores reclamaram demais e chegaram até a ameaçar uma greve enquanto os árbitros oficiais não voltassem, e até o presidente Obama resolveu falar sobre o assunto: pediu nas entrelinhas pelo Twitter que “pelo amor de Deus, entrem em um acordo rápido porque ninguém agüenta mais os replacement”.

Inclusive um jogador do Packers soltou dois twitts desafiadores logo após o jogo. Em tradução bem livre foi assim: “Fui fodido pelos árbitros. Constrangedor. Obrigado NFL” e “Toma no cu, NFL. Multem-me e utilizem o meu dinheiro para pagar os árbitros”.

Coincidência ou não, na 4ª feira seguinte (semana passada) a NFL decidiu negociar e chegou em um acordo com os árbitros no memso dia. Não foi o acordo dos sonhos para nenhum dos lados, mas como em uma negociação, ficou em um meio termo.

Segundo o chefe das negociações pela parte dos árbitros o acordo feito foi exatamente o proposto desde abril e que Godell simplesmente não aceitava por pirraça ou ganância.

O acordo seria aprovado oficialmente só no fim de semana (e o foi por 116 votos a favor, só cinco foram contra) mas a comoção foi tão grande que Godell aceitou que os árbitros já voltassem, mesmo sem acordo oficialmente assinado, para o jogo de 5ª feira passada.

Os árbitros foram loucamente aplaudidos na 5ª feira quando entraram em campo, assim como em vários outros jogos durante o final de semana.

[N.do.E.: eu vi esta partida. Nunca imaginei que viveria para ver árbitros sendo aplaudidos da forma que foram.]

É impressionante como a inabilidade e a falta de vontade de Godell transformou trapalhões natos (os árbitros da NFL atualmente estão longe de serem bons e também tem cometido erros bisonhos) em heróis de forma bastante rápida.

Mais impressionante é tentar entender como um comissário tão ruim como Godell - que causou sozinho três ou quatro enormes confusões na NFL nos últimos três anos de forma desnecessária - é tido por 10 entre 10 “entendidos” de gestão esportiva como um dos maiores profissionais da área.

Se eu não dissesse que era de futebol americano, creio que vários leitores deste blog imaginariam de se tratar de algo no Brasil.

Simplesmente inacreditável!

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Made in USA - "Escândalo na NFL"


Nesta quarta feira, a coluna “Made in USA”, do advogado Rafael Rafic, volta a seu habitat e nos conta sobre um escândalo de grandes proporções que agitou a liga de futebol americano, a NFL.

Escândalo na NFL

Antes de começar, quero pedir desculpas aos leitores por ficar três semanas sem escrever, mas infelizmente devo adiantar que esses lapsos um pouco maiores poderão ser mais comuns daqui para frente devido a questões profissionais e às minhas tarefas como jogador e árbitro de xadrez. Após essa explicação, vamos ao “mérito” da coluna.

Depois de ficarmos três meses só falando de Jogos Olímpicos, é hora da Made in USA voltar ao seu habitat natural, os Estados Unidos. Nada mais natural do que falarmos do início da temporada da liga de futebol americano, a NFL, ocorrido no início deste mês.

Já adianto que minhas apostas para chegar ao Super Bowl (o grande jogo final, que em 2013 será no dia 03 de fevereiro, em New Orleans) nessa temporada ficam com o Baltimore Ravens e o sempre favorito Pittsburgh Steelers pela Conferência Americana. Além do Atlanta Falcons e do San Francisco 49ers, na Conferência Nacional.

Alias, na Conferência Nacional não se pode descartar o bom time do Green Bay Packers. Bem como o atual campeão – e time do Editor Chefe - New York Giants, que sempre faz temporadas regulares medianas, mas se o deixarem chegar nos playoffs literalmente se agiganta.

Mas ainda não é sobre isso que quero falar na coluna de hoje.

Pela segunda vez consecutiva, depois do fantasma da greve dos jogadores no ano passado, a temporada não começa de forma tranquila. A NFL está sob o impacto de uma “off-season” (época fora de temporada) conturbada, na qual estourou um escândalo do qual talvez ainda não tenhamos visto todas as suas conseqüências, apelidado de “Bountygate”. Bounty é recompensa em inglês e o gate vem de “Watergate” mesmo.

Tudo começou ainda na final da Conferência Nacional de 2010 (equivalente à semifinal) entre New Orleans Saints e Minnesota Vikings.

O quarterback (posição mais importante de qualquer time) do Vikings na época era o ótimo, mas velho e quebrado, Brett Favre.

O jogo transcorreu de forma estranha e não precisava ser um entendido de futebol americano para perceber que claramente os jogadores de defesa do Saints estavam jogando para partir o Favre ao meio ou então em três partes. Isso levantou suspeitas de que o Saints estaria pagando o que no futebol se chamaria de “bicho” para o jogador que tirasse o Favre de jogo.

A NFL nada fez publicamente e o caso foi esquecido como um “choro de perdedor”.

Só que, na verdade, a NFL estava fazendo uma investigação sigilosa gigantesca que durou quase dois anos. Esta investigação começou a realmente achar provas da existência de um programa institucional de recompensa dentro do New Orleans Saints para os jogadores que machucassem propositalmente adversários relevantes - em um absurdo ético e do fair-play. Isso sem contar que as regras da NFL claramente proíbem esse tipo de recompensa.

Ainda segundo as investigações, tudo começou com uma idéia do coordenador de defesa, Gregg Williams, e vários jogadores adversários foram escolhidos como alvo durante os três anos de funcionamento do esquema. Inclusive Favre teria sido o alvo n° 1 da história desse esquema e quem conseguisse tirá-lo do jogo iria ganhar uma nota preta. Dinheiro esse que era financiado pelo próprio Williams e pelos jogadores que formavam a defesa

Tudo indica que, após a NFL descobrir o esquema e informar a cúpula do Saints, a mesma nada fez para interromper o esquema criminoso.

Resultado: em março desse ano a NFL anunciou publicamente o resultado de suas investigações e as punições severíssimas sofridas pelos principais envolvidos no esquema:

1) Williams foi suspenso por tempo indeterminado da NFL.
2) Sean Payton e Mickey Loomis, respectivamente técnico e administrador do Saints também foram suspensos por, em podendo, nada fazerem para quebrar o esquema quando souberam de sua existência. O primeiro está fora de toda a nova temporada, o segundo pelos seus oito primeiros jogos.
3) Joe Vitt, técnico assistente, também foi suspenso por seis jogos por cumplicidade, já que soube do esquema e manteve-se calado.
4) Os jogadores Jonathan Vilma, Anthony Hargrove, Will Smith e Scott Fujita também foram suspensos por quantidade variada de jogos (de 3 jogos até 1 temporada inteira) por liderarem o esquema entre os jogadores.

É a primeira vez que um técnico é suspenso na NFL e, até aqui, a maior punição para incidentes dentro de campo contra um jogador tinha sido de cinco jogos. Uma temporada regular completa na NFL tem 16 jogos.

Porém, para variar, nem tudo são flores. Parece que mais uma vez, Roger Goodell, o comissário da NFL (equivalente a presidente), agiu rápido demais e errado, abusando de seus poderes. Assim como já tinha feito com o quase-desastre da greve ano passado.
A associação de jogadores recorreu das punições aos jogadores para um painel de arbitragem instituído dentro do âmbito do CBA (o acordo coletivo de trabalho dos jogadores com a NFL) e conseguiu a anulação das suspensões por falta de provas neste último dia 7.

Assim, a não ser que Goodell traga novas provas que demonstrem a intenção dos jogadores de machucar deliberadamente os adversários, os jogadores não serão punidos. Godell já indicou que deverá fazer isso em um momento próximo.

Já não bastasse toda essa confusão, logo após a coletiva de março da NFL que expôs o problema surgiram inúmeras acusações por parte de ex-jogadores de que Gregg Williams implantou esquemas semelhantes em três outros times nos quais trabalhou: Tennessee Titans, Washington Redskins e Buffalo Bills.

A NFL já informou que está investigando essas denúncias e não estão descartadas novas descobertas e punições em um escândalo que pode manchar bastante a popularidade do esporte, considerado bastante violento por muitos.

Para completar o cenário, o episódio mostrou a fragilidade da arbitragem na NFL.

Um documentarista, aproveitando a onda, lançou um áudio de uma reunião de Williams com seus jogadores de defesa antes do jogo de playoffs contra o 49ers desse ano. Em um discurso desprezível, ele instruiu os jogadores a machucar deliberadamente quatro jogadores do 49ers, inclusive mostrando as lesões que eles sofreram durante a temporada - para que os jogadores “explorassem o ponto certo”.

Impressionantemente, nenhum dos contatos ilegais, ou seja, faltas, feitos pelo Saints no jogo (e já se acharam mais de 10 nos replays) foi marcado pela arbitragem, ficando absolutamente impune.

Lá, como cá...

Em tempo 1: Naquele ano de 2010, o Saints se sagrou campeão e até agora ninguém pensou em cassar o título. Já no jogo contra o 49ers, o Saints perdeu por 36-32.

Em tempo 2: particularmente eu tenho fortíssimas suspeitas de que mais quatro ou cinco times da NFL tenham esquemas semelhantes ainda não descobertos, principalmente o Baltimore Ravens que está com uma defesa extrema demais.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Made in USA - "Tim Tebow e o Marketing Esportivo: estudo de caso"


Nesta quarta, a coluna “Made in USA”, do advogado Rafael Rafic, faz um interessante estudo de caso de uma realidade que no exemplo é americana, mas que ocorre inclusive aqui no Brasil: o chamado “marketing de emboscada” esportivo.

Tim Tebow e o Marketing Esportivo: estudo de caso

Todos devem se lembrar da transferência de Peyton Manning para o Denver Broncos no futebol americano - ela foi o mote para a coluna sobre “Salary Cap”. O texto de hoje irá explorar uma conseqüência indireta da mesma.

Com a ida de Peyton para Denver, o quarterback titular do Broncos em 2011-2012, Tim Tebow, ficou sem lugar no time - seria um reserva de luxo apenas. Assim, o Denver o trocou para o New York Jets - onde ele também não será titular absoluto, diga-se de passagem.

Mas não quero aqui discutir a situação de jogo para Tebow, mas os limites do marketing extra-campo, oficial e não oficial.

Tebow, para quem não conhece, é uma figura nova no futebol americano. Surgiu na última temporada como um jogador jovem e promissor de um time tradicional (o Broncos) que não vinha passando por uma boa fase.

Além disso, ele se destacou por sua extrema devoção religiosa, herdada de seus pais que eram missionários batistas nas Filipinas, onde ele nasceu. Mal comparando, ele é o Kaká americano. Ainda nos tempos de universidade, ele escrevia referências bíblicas no eye black (aquela tinta preta usada abaixo dos olhos para reduzir reflexos) nos jogos.

Ao subir para a NFL, embalado por uma série espetacular de jogos pelo Broncos, ele criou uma verdadeira “Tebowmania”. Ainda mais com sua extrema devoção cristã em um local em que o protestantismo é levado a sério dentro dos EUA.

Inclusive foi criado um neologismo, já incorporado oficialmente ao léxico americano: “Tebowing”, para o ato de fazer a genuflexão em oração que Tebow sempre faz antes de entrar em campo e em jogadas importantes quando há tempo para isso – foto no início deste post.

The tebowing act

A onda “tebow-religosa” foi tão grande que nos jogos do Broncos só se via camisas do Broncos com o n° 15 dele e no lugar do nome estar escrito “Jesus”. Ato que Tebow não só aprovou como chegou a incentivar em algumas entrevistas.

Só que, de repente, colocam esse novo jogador, figura controvertida e ainda não acostumado a lidar com todos os percalços da fama no maior e mais cruel mercado dos EUA: New York.

Em New York a mídia chega a ser perversa. É uma cidade com um mercado consumidor esportivo enorme (não à toa todas as ligas profissionais tem, pelo menos, dois times na cidade) e com vários veículos de mídia disputando esse mercado.

Não raro nessa disputa eles acabam resvalando no sensacionalismo, sempre procurando (e arranjando) problemas dos jogadores (principalmente dos mais visados) apenas para colocar na manchete e vender jornais, o que acaba expondo mais os times e seus jogadores em âmbito nacional.

Inclusive o jornal de maior circulação, o NY Post, pertence à News Corporate, que vem a ser o conglomerado de mídia de Rupert Murdoch (aquele dos grampos clandestinos no Reino Unido). Preciso dizer algo mais sobre este ponto?

Com esse cenário, mal Tebow chegou e já temos um problema interessante, que, inacreditavelmente, não foi iniciado pelo NY Post.



Um site especializado em vender camisas não-oficiais (porém com imagens populares entre torcedores), o Cubby Tees.com, colocou a venda uma camisa inspirada no símbolo do novo time de Tebow, o NY Jets, porém com alguns símbolos trocados e escrito “My Jesus” no lugar de “NY Jets” e um peixe com uma cruz no lugar da bola de futebol americano (imagem acima).

Semana retrasada, os advogados de Tim Tebow enviaram uma notificação (no direito norte-americano é uma “cease and desist letter”, porém acredito que a figura mais próxima daqui é a notificação) obrigando o site a retirar de venda a camisa sob pena de Tebow acionar a empresa solicitando a retirada de venda judicialmente e o pagamento de danos a ele.

Na mesma alegava que o site estava se utilizando de práticas comerciais enganosas e usando o nome de Tebow indevidamente. O site se defendeu dizendo que eles são artistas e não querem desrespeitar os direitos de ninguém, porém não deixariam de proteger os seus direitos autorais. Também utilizou em sua defesa que a imagem é “positiva e inócua” e o gráfico é correto pois em tempo algum menciona Tebow ou o NY Jets.

Isso liderou a um rebuliço seguido de um belo debate nos EUA que quero estender ao Ouro de Tolo. Até que ponto o “marketing não-oficial” pode se utilizar de imagens conhecidas e protegidas por direitos autorais para, usando o “subconsciente coletivo”, faturar em cima?

A discussão se torna ainda mais interessante quando verificamos alguns aspectos desse problema.

Primeiro: apesar de claramente inspirado no logo do Jets, em momento algum a imagem em si faz referência direta ao logo oficial.

Segundo: em momento algum o nome de Tebow ou qualquer referência direta a ele é feita, mas apenas a uma figura universalmente conhecida e devotada: Jesus Cristo.

Terceiro: o site deixa bem claro que a camisa não é autorizada pelo NY Jets, por Tebow ou pelo “Son of god” (filho de Deus, em inglês).

Por outro lado, o site claramente em seu argumento de venda, relaciona a camisa a Tebow. Inicialmente pela própria URL da camisa que termina com “TebowJesus.html#”.

Depois, o próprio site escreve que a camisa “lays off the themes of Tebow's faith and his new team - borrowing from the J-E-T-S to promote J-E-S-U-S, with a fish for a football, and "MY" replacing "NY" with a color scheme that will be familiar to Jets fans”.

Em tradução livre: “brinca com os temas da fé de Tebow e seu novo time, pegando emprestado o J-E-T-S para promover J-E-S-U-S, com um peixe no lugar da bola de futebol americano e “MY” no lugar de “NY” com um esquema de cores que será familiar aos fans do Jets”.

Ou seja, em seu argumento de venda, o site realmente se utiliza da figura de Tebow para promover a camisa, no que é bastante parecido com o “Marketing de Emboscada” (vide nota), tema bastante em voga quando se estuda sobre marketing olímpico. Basicamente trata de se utilizar um evento esportivo para se associar e capitalizar em cima deles sem pagar qualquer direito ou patrocínio para o mesmo. O COI lutou (e continua lutando) intensamente contra isso, que quase matou a imagem do marketing olímpico após Atlanta 1996.

A discussão está posta e os argumentos de ambos os lados mostrados. Que o inteligente leitor do Ouro de Tolo tire suas próprias conclusões. Eu tenho as minhas, porém não as revelarei para evitar influências nos pensamentos de vocês.

Nota: o termo em inglês é “Ambush Marketing”, que traduzido ao pé da letra seria “marketing de camelô”. Como claramente não é esse o conceito que se quer trazer à tona, me utilizei da tradução feita por Marcus Vinícius Freire (ex-chefe de missão do COB e atual superintendente executivo de esportes do mesmo) em seu livro “Ouro Olímpico” (editora Casa da Palavra, selo COB Cultural).

P.S: a partir dessa coluna, a Made in USA irá tirar umas férias longas dos esportes americanos, mas por um bom motivo. Como “consultor não-oficial de esportes olímpicos” do Ouro de Tolo farei uma série de colunas especiais sobre os Jogos Olímpicos, aproveitando o fato de que eles já começam em 27 de julho (e devo tirar férias só para acompanhá-los). Também pretendo encerrar a série com os preparativos para a Rio 2016, que estou acompanhando de perto já tem quatro anos.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Made in USA - "Esportes Americanos: Uma Parcial dos Resultados"


Excepcionalmente nesta quinta feira, a coluna “Made in USA”, do advogado Rafael Rafic, nos traz uma parcial dos quatro principais esportes americanos e sua situação de resultados atual.

Aproveitando, há uns quinze dias vi na ESPN HD uma partida da MLS – a liga americana do nosso futebol – entre o Los Angeles Galaxie e o New York Red Bull. Me espantei com o estádio lotado e ver como David Beckham ainda consegue jogar em alto nível, apesar da vitória do time nova iorquino por um a zero.

Esportes Americanos: Uma Parcial dos Resultados

Quando me candidatei à colunista deste blog, minha idéia inicial era fazer uma coluna que comentasse os últimos resultados dos esportes americanos. Depois percebi que o Ouro de Tolo pedia um outro perfil de coluna e mudei o piloto inicial.

Porém, após dois meses de coluna, com o hóquei e o basquete entrando nos playoffs decisivos enquanto o baseball está de pernas para ar, chegou a hora de “voltar às origens”.

No hóquei, a única pergunta que todos se fazem é: quem irá conseguir parar o Los Angeles Kings? O Kings teve uma temporada regular mediana e só se classificou para os playoffs sendo o oitavo colocado (e último classificado) da conferência oeste da NHL, aproveitando-se das vagas generosas da NHL para os playoffs (são 16 times classificados em 30 existentes). Sendo o último classificado, ele teve o ingrato emparceiramento com o Vancouver Canucks, 1° colocado da conferência e campeão da Presidents Cup, troféu dado pela NHL ao time de melhor campanha na temporada regular. O Canucks, apesar de ser o “time” de Vancouver, nunca ganhou um título e estava bastante confiante que esse seria o ano.

O que o Kings fez então? Assombrou o mundo do hóquei e inesperadamente ganhou as duas primeiras partidas da melhor de sete em Vancouver. Após perder uma partida em Los Angeles, o Kings voltou a Vancouver só para derrotar o Canucks em casa pela terceira vez seguida na série e fechá-la em 4 a 1.

Passando para a segunda fase, o Kings, sendo o cabeça-de-chave 8, teve o dissabor de, após derrotar o cabeça número 1, enfrentar o número 2 St. Louis Blues. O Kings nem tomou conhecimento e simplesmente varreu o Blues, fazendo 4-0 e se classificando para a final da Conferência Oeste (semi-final da liga) contra o Phoenix Coyotes (número 3). No momento em que escrevo [N.do.E.: a coluna foi escrita no último sábado] a série ainda não começou.

O outro cabeça de chave número 1 (que vem da outra conferência, a leste) da NHL, o New York Rangers, também não está tendo vida fácil. Na primeira rodada, contra o n°8 Ottawa Senators, o Rangers se viu ‘contra a parede’ perdendo por 2-3, tendo que ganhar o jogo 6 em Ottawa (sempre difícil) só para forçar uma “negra” em New York.  Finalmente nesses dois jogos finais o Rangers voltou a jogar como um time (e não um ajuntamento de jogadores) e saiu do buraco.

Na rodada seguinte a NHL viu uma das melhores séries de sua história moderna. Rangers (na foto) e Washington Capitals (n°7) fizeram sete jogos eletrizantes, todos eles de uma eficiência defensiva como há muito não se via em dois times de hóquei (bem à moda antiga, como eu gosto). Essa eficiência não significa falta de ataque: os dois times também atacaram bem, mas com inteligência. Destaque para o jogo 3, que só terminou na terceira prorrogação – não há empate.

No final, em um jogo sete em New York extremamente badalado, que atraiu a atenção até de quem não acompanha hóquei, o NY Rangers ganhou de 2 a 1 e se classificou para a final da conferência leste contra o New Jersey Devils (n°6). Essa série deverá ter uma alta octanagem devido à rivalidade entre os dois times. Apesar de estarem em estados diferentes, Newark, sede dos Devils, fica dentro da metrópole de New York, a menos de 20 quilômetros de Manhattan.

Os vencedores de cada conferência se enfrentarão na disputa da Stanley Cup (troféu do campeão da NHL). Enquanto isso, no basquete...

Não estou vendo os jogos, mas as informações que recebo estão me dando nojo (e menos vontade ainda de assisti-los). Os problemas de arbitragem na NBA estão se proliferando em todas as partidas, especialmente nas séries envolvendo o Miami Heat  -que derrotou o New York Knicks com a ajuda fortíssima dos juízes - e o Oklahoma City Thunders.

Aliás, a NBA tem a pior arbitragem das ligas americanas atualmente, o que não é pouco se comparado aos frouxos do hóquei, alguns patetas do baseball e o futebol americano e seu caderno de regras de 200 páginas indecorável.

[N.do.E.: para mim, torcedor dos Knicks, esta série de play offs deu raiva. As arbitragens dos jogos em Miami foram uma piada. Fecha o parêntese]

É triste dizer isso, mas a impressão que tenho (e não é de agora) é que a NBA quer uma final entre Heat e Thunders e está fazendo de tudo para ela ocorrer, mesmo que tenha que recorrer a uma arbritagem parcial. Em um esporte de contato como o basquete, qualquer pequena ajuda dos árbitros a um time pode fazer diferenças enormes no placar [N.do.E.: LeBron James parecia feito de cristal: se algum jogador dos Knicks chegasse a menos de um metro dele era falta...].

De qualquer forma, nem na NBA a coisa está fácil para os “números 1”. O cabeça-de-chave n° 1 da Conferência Leste, o Chicago Bulls (da lenda Michael Jordan) viu sua estrela maior Derrick Rose torcer o ligamento cruzado na primeira partida dos playoffs, não conseguiu se recuperar do baque e perdeu na primeira rodada para o n°8 Philadelphia 76ers por 4-2.

Os playoffs ainda estão só no início (a NBA também sofre do extremo inchaço dos playoffs, passando 16 dos seus 30 times).e no momento em que escrevo, ainda estão pendentes dois jogos da 1ª rodada, entre eles uma improbabilíssima partida sete entre o todo poderoso Los Angeles Lakers e o Denver Nuggets [N.do.E.: no sufoco os Lakers venceram a série]. Com o decorrer do mesmo poderemos ter um melhor panorama do mesmo e se realmente há a conspiração que acusei acima.

Já o baseball está no meio de seu segundo mês de uma longa temporada de seis meses. Ainda estamos no final da parte inicial da mesma e minha experiência garante que muita coisa mudará até o final de setembro. Porém já temos jogados, em média, uns 35 jogos por time e podemos discutir algumas colocações, que aliás estão loucas.

Para começar, a famosa divisão leste da Liga Americana (LA). Essa é a divisão mais forte dos EUA, com os perenes candidatos ao título New York Yankees e Boston Red Sox, além do melhor time custo-benefício dos esportes americanos, o Tampa Bay Rays. Mas o atual líder da divisão é o café-com-leite Baltimore Orioles, que 10 entre 10 especialistas (e me incluo) apostavam de olhos fechados que seria o lanterna convicto da divisão (como o é desde 2008). De qualquer forma, a divisão está extremamente difícil, com o 4° colocado apenas 3 jogos atrás do líder. Só para se ter uma idéia, o Toronto Blue Jays, quarto lugar, seria segundo colocado em quatro das outras cinco divisões do baseball (a quinta, a LN leste, será abordada abaixo).

O Yankees vem pelejando no terceiro lugar da divisão (após uma semana em quarto) e o lanterna convicto é inacreditavelmente o Boston, com uma péssima campanha de 13 V e 19D.

Na outra divisão leste, a da Liga Nacional (LN), também está tudo ao contrário. Os favoritos Miami Marlins e Philadelphia Phillies (cotado até para o título da liga) estão nas duas últimas posições, enquanto o eterno lanterna Washington Nationals está jogando um baseball soberbo e lidera a divisão. Outra divisão que também está complicadíssima. Também ocorre ao Miami, quarto colocado, o relatado sobre o Blue Jays acima.

O Texas Rangers (atual bi-vice da liga) está quentíssimo e reafirma o que já se dizia dele antes da temporada: é o time a ser batido no baseball. Está com uma campanha de 22V e 12D (65% de aproveitamento), o que para os padrões do baseball é muito alto, e seus rebatedores estão mandando a bolinha na lua toda vez que rebatem. Lidera sua divisão oeste da LA com uma folga de 4,5 jogos e não deve ter problemas para ganhá-la. Resta ver se eles manterão o ritmo quente do início da temporada em outubro, nos playoffs.

Já o Los Angeles Dodgers, tema da coluna passada de sábado aqui no Ouro de Tolo, continua mostrando seu valor com a situação financeira resolvida e, além de ter uma excelente campanha com 21V e 11D, graças a uma divisão extremamente fraca - a oeste da LN - tem vantagem de seis jogos sobre o segundo colocado. Isso representa um mundo no baseball, ainda mais em um estágio tão inicial da temporada.

De resto, apenas a lamentar a segunda colocação do Detroit Tigers na divisão central da LA. Com quatro adversários muito fracos, já era para o Detroit Tigers liderar com tranqüilidade sua divisão, porém ele está com 16V e 16D, dois jogos atrás do ruim Cleveland Indians. Se o Tigers conseguir a proeza de perder essa divisão, teremos uma situação curiosa que comentarei caso ela se concretize em outra coluna. Posso adiantar que tem a ver com a nova regra do “segundo Wild Card”, tema da primeira coluna “Made in USA”.

Por fim, para quem não sabe, a temporada de futebol americano só volta em setembro e os times estão de férias nesse momento, apenas fazendo contratações e trabalhando os novos jogadores recebidos no draft de duas semanas atrás. Quando estivermos mais perto do começo da temporada darei mais atenção às novidades da NFL.


quarta-feira, 18 de abril de 2012

Made in USA - "A 'Revenue Sharing' e suas lições ao futebol"


Nesta quarta feira, a coluna "Made in Usa", do advogado Rafael Rafic, mostra como funciona o sistema de partilha de receita dos esportes norte americanos a as lições que ele pode oferecer aos futebol mundial como um todo. 

Na semana em que o Flamengo está a ponto de descartar seu melhor parceiro - a Olympikus - porque ouviu um "não" a determinado pedido, é uma boa medida de como estamos pelo menos 30 anos atrasados em termos de gestão esportiva.

A "Revenue Sharing" e suas lições ao futebol


Após falar sobre o Salary Cap na semana retrasada, não posso perder a oportunidade de arrematar a relação entre faturamento, custos e competitividade sem falar de outro mecanismo americano para diminuir o fosso entre os times ricos e pobres. Este, igualmente, é totalmente desconhecido do Brasil e do mundo futebolístico mundial: a “revenue sharing” (ou partilha de receitas, em português).

Diferentemente do Salary Cap, a “revenue sharing”, em relação à competitividade (para não entrar em discussões contábeis e administrativas), basicamente consiste em fazer com que os times que tenham um mercado maior, e por isso tenham mais lucros com vendas de itens tais quais uniformes, ingressos e transmissão de jogos, tenham que ceder uma parte desses ganhos para os times de menor mercado. Isso é feito para que a diferença de poderio financeiro entre eles não chegue ao absurdo de inviabilizar investimentos em jogadores dos times menores, já os eliminando da disputa pelo título antes do início do campeonato. Mais uma vez cada uma das ligas tem a sua fórmula.

A MLB (baseball) tem um sistema complicado. É onde há maior disparidade entre os times grandes e pequenos, além do fato que a maior parte dos ganhos dos times da liga vem justamente dos mercados locais dos times, sendo os contratos nacionais (normalmente feitos com a liga, não com times em si) responsáveis apenas por uma pequena parte das entradas. Para complicar ainda mais, como eu já disse na coluna passada, o baseball não tem um sistema de Salary Cap.

Todos os times devem contribuir com 31% de seus lucros sobre licenciamento para um fundo único. Após a arrecadação, esse fundo é distribuído igualmente entre todos os times. Como os times maiores pagam mais do que levam se tem uma redistribuição. Além disso, os ganhos nacionais (via contratos diretos com a MLB), são distribuídos aos times de forma inversamente proporcional ao tamanho dos mercados.

Para complementar o sistema, a partir de 2016 os quinze maiores times da liga (ou seja, a metade dos times) não receberão nenhum dinheiro desse fundo, sendo parcialmente indenizados pela distribuição menos “injusta” dos contratos nacionais. Porém, o time que constantemente ultrapassar o limite da luxury tax (vide coluna passada) terá fortes descontos nessa indenização. Pelo que se noticia, tudo indica que, após dez anos ignorando a luxury tax o NY Yankees finalmente tentará ficar abaixo do limite da mesma em 2014 ou 2015, a fim de evitar essa nova punição.

A NHL (hockey) aqui também tem complicações do fato de ser uma liga forte em dois países diferentes. Ela também é fortemente baseada nos mercados locais, mas os mercados canadenses funcionam de forma um tanto diferente dos americanos. De forma geral a “revenue sharing” da NHL é paga também por um fundo comum, porém apenas os dez times que mais ganharam dinheiro no ano contribuem para esse fundo. O valor da contribuição é calculado por uma fórmula matemática um tanto complicada, que não cabe explicar aqui.

Se os 10 maiores só pagam, apenas os 15 menores podem receber (também são 30 times). Ainda sim eles precisam cumprir dois requisitos para ganhar sua cota cheia: ter média de pelo menos 80% de lotação em seus jogos em casa e mostrar um aumento nas receitas de venda maior do que a média da liga. A cada requisito não cumprido, segue um desconto no valor da cota. A penalidade nunca pode chegar a anular a cota, mas pode causar um bom corte no valor da mesma. De qualquer forma, times que ficam em mercados com mais de 2,5 milhões de lares com televisão em hipótese alguma poderão receber dinheiro proveniente do fundo da “revenue sharing”.

A NBA (basquete) após dificílimas negociações entre os donos de time entre outubro e dezembro do ano passado, chegou a uma “revenue sharing” de fórmula louca que só entrará totalmente em ação durante a temporada 2013-2014. É impossível explicar exatamente seu funcionamento aqui. Mas, de modo geral será parecido com o fundo do baseball, com todos os times pagando uma percentagem para um fundo comum e todos recebendo a mesma quantidade absoluta de dinheiro deste fundo.

Já a NFL (futebol americano) funciona de forma oposta às outras três ligas.

A maior parte de seus ganhos vem de contratos nacionais fechados com a liga, na ordem de US$ 4 bilhões, e os mesmos são distribuídos igualmente entre todos os times (ou seja, exatamente o inverso que ocorre hoje no Brasil, em que cada time negocia por si ganhando cotas desiguais). O mesmo ocorre com os ganhos de licenciamento.

Já as receitas de ingresso para cada jogo são dividas de forma que 60% delas ficam para quem joga em casa e 40% vão para o visitante (no Brasil tenho a impressão que é uma civilidade inaceitável dar receita de ingresso ao visitante, pelo menos nos dias de hoje). No novo CBA, ainda entrou uma espécie de “luxury tax” que, ao invés de se aplicar a folha de pagamento, se aplica aos ganhos dos times com estádios melhores (leia-se maiores camarotes, lounge para patrocinadores, etc.) para que esse excesso se reverta em parte para os times menos privilegiados.

De qualquer forma, quero mostrar que em todas as ligas americanas há uma preocupação com a “paridade de armas” dos times, sendo os times de menor ganho ajudados pelos de maior ganho para que seja mantida a chance de todos os times, sendo bem geridos, terem condições de disputar o título.

Será que essa idéia é tão refratária ao futebol?

Apresentei aqui quatro fórmulas diferentes de contenção de salários mais três fórmulas de redistribuição de receitas. Será que nenhuma delas pode ser aplicada ao futebol, não só ao brasileiro como também ao europeu? Ou então utilizar uma outra, melhor adaptada à realidade diferente da estrutura de clubes esportivos brasileira/européia, mas com as mesmas finalidades?

Todos ficaram felizes com a campanha surpreendente do Apoel na Champions League. Se o futebol repensar sua total ignorância a esse tema, novos apoeis e são caetanos podem surgir para melhorar não só a competitividade como a própria qualidade do jogo. E o melhor, eles não serão passageiros como os exemplos citados: podem surgir para ficar. É só dar as armas necessárias aos times menos privilegiados.

O Tampa Bay Rays (MLB) e o Green Bay Packers (NFL) são ótimos exemplos de times bons em mercados pequenos que toda essa estrutura pode proporcionar. O primeiro foi finalista da liga em 2008 e o outro era o atual campeão até esse último janeiro.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Made in USA - "Salary Cap"


Hoje a segunda edição da coluna "Made in USA", assinada pelo advogado e especialista em assuntos aleatórios Rafael Rafic, mostra um pouco de como funciona o sistema salarial dos esportes americanos. Sistema esse que impõe heróis como Mario Mannningham (foto) a saírem do Giants por causa do teto.

Vamos ao texto.

Salary Cap

Após ler sobre a notícia da rescisão do contrato entre Peyton Manning e o Indianápolis Colts na semana retrasadanm, tudo por causa da recusa do time em pagar-lhe um bônus de 28 milhões de dólares (sendo que Peyton é tido por alguns como o melhor jogador de futebol americano dos últimos 20 anos e o homem que tirou o Colts da lanterninha eterna da NFL para colocá-lo como um dos favoritos ao título), tive a idéia de escrever aqui, em algum momento, sobre os sistemas de limitação de gastos com jogadores existentes nos esportes americanos, ou “Salary Cap” como eles chamam. 

Após ler a coluna do AffonsoRomero do último dia 19, achei que hora de antecipar esse tema para agora.

Em três das quatro ligas americanas (futebol americano, hockey e basquete) com o pretexto de nivelar os times, impedindo que os de maior mercado (e conseqüentemente maior renda) consigam angariar os melhores jogadores apenas oferecendo altos salários, as ligas usam de um sistema que impõe um teto para o valor em salários do plantel. É uma forma de estimular a competitividade e dar a chance aos times menores de conseguir competir com alguma chance contra os times maiores e mais tradicionais.

Só que também o “Salary Cap” acaba tendo outra função importantíssima: o controle de custos da liga. Ele evita que um time gaste por demais pensando no campeonato do ano, às custas de longos anos de péssimos resultados. Esse último ponto é ainda mais importante nos EUA, onde não paira sobre os times das ligas fechadas o fantasma do rebaixamento.

Cada uma das ligas tem seu próprio sistema de “Salary Cap”, totalmente diferentes um do outro. Por exemplo, a NFL usa um “teto duro” (hard cap) em que, em nenhuma hipótese, um time pode passar do teto total estabelecido.

De modo geral, o teto do futebol americano tem dado certo, mas algumas vezes ocorre de um ídolo ter que sair do time querido justamente porque o teto do time não comporta o pagamento do seu salário (não foi exatamente o caso do Peyton, mas também foi um fator). Para a temporada 2012/13 o teto será US$ 120,06 milhões para um plantel de 53 jogadores.

Para evitar esse problema da NFL, a NBA (basquete) usa um “teto macio” (soft cap), em que há algumas exceções que permitem que um time, para manter um jogador antigo do time, fique acima do teto pré-estabelecido. Como resultado, muitos times acabam ficando um pouco acima do teto.

Para a temporada 2010/11 o teto foi de 58 milhões para um plantel de 15 jogadores. Ressalvo que houve novo acordo ao fim de 2011 para a temporada 2011/12, sobre o qual ainda não tenho dados precisos.

Já a NHL também adota um “hard cap”, porém com várias minúcias relativas à manutenção de jogadores atuais e, principalmente, para a adaptação da competitividade tendo times baseados em dois países diferentes (já que a NHL tem sete times no Canadá), diferenças essas que não cabem explicar em apenas uma coluna. O teto para a temporada 2011/12 é de US$ 64,3 milhões para um plantel de 23 jogadores.

Para preservar os jogadores, as ligas que adotam o “Salary Cap” também adotam um “Salary Floor” (piso de salário), ou seja um valor mínimo para a folha de pagamentos, justamente para proteger os salários dos jogadores.

Os valores tanto do “cap” como do “floor” são discutidos durante a confecção dos acordos coletivos entre os jogadores e os donos de time que ocorrem de tempos em tempos. No direito americano esse acordo coletivo trabalhista é chamado de Collective Bargaining Agreemente, CBA. Basicamente é uma figura similar à nossa convenção coletiva de trabalho, CCT.

Porém o sistema de “Salary Cap” tem um problemão, além do que já foi citado sobre manutenção de jogadores antigos no time, que é o fato de limitar os ganhos dos jogadores, principalmente dos jogadores mais bem sucedidos, já que quanto maior o salário de um jogador menos sobra para pagar o resto do time.

Afinal de contas, o teto máximo limita a percentagem de ganho dos jogadores em relação ao faturamento dos times. Justamente por isso, nos últimos 15 anos, em todas as vezes que patrões e jogadores se sentaram a mesa para conversar sobre um novo CBA houve grandes embates, tendo greves na NBA e na NHL. Ano passado, a NFL escapou de uma por questão de dias.

Justamente por causa de uma greve, a grande greve de 94-95, a MLB (baseball) prefere não utilizar um “Salary Cap”, deixando o valor dos salários dos jogadores de agência livre  a total mercê das negociações individuais entre o jogador e o time. Isto atinge basicamente os jogadores que tem mais de seis anos de liga: quem tem menos de seis tem um processo especial de arbitragem, que não cabe explicar aqui.

Cada time gasta com folha salarial o que bem entender (para cima ou para baixo). O único limite existente é o valor do “salário mínimo” de cada jogador (atualmente em US$ 480 mil anuais). Em 2010 (não achei os números de 2011), a média da folha de pagamentos dos trinta times da MLB foi de US$ 90 milhões para um plantel de 25 jogadores.

Mas a MLB não deixa seus clubes totalmente 'ao Deus dará'. Para desestimular seus times a gastarem demais da conta, criou a chamada “Luxury Tax” (em tradução livre, taxa de luxúria), na qual se estabelece um limite para a folha de pagamento. O time pode passar desse limite, mas terá que pagar para a liga, como taxa, uma porcentagem do valor da folha que exceder a esse limite.

Quanto mais anos consecutivos o time ultrapassa esse limite, maior será a porcentagem da taxa aplicada a ele (o New York Yankees, que todo ano ultrapassa com folga o limite, já chegou aos 40% e costuma pagar entre US$ 15 e 20 milhões por ano em “Luxury tax” ). Atualmente o limite da luxury tax está em US$ 178 milhões e, na prática, apenas o Yankees passa do limite.

A “Luxury Tax”, combinada com várias outras formas de controle da MLB (que não recaem sobre folhas de pagamento e por isso não serão abordadas aqui) tem a clara vantagem de criar uma “pax laboral”, já que desde 1997 a MLB não enfrenta qualquer dificuldade mais severa para renovar seus CBAs. Totalmente ao revés das outras três ligas que sempre engasgam na discussão do teto salarial.

Não vou entrar aqui em discussões mais aprofundadas sobre qual das quatro estratégias é a mais correta ou a que está dando melhores resultados para donos, jogadores e o nível de competição em um geral, pois não é meu objetivo (apesar dos números, para mim, apontarem uma que se destaca).

A pergunta que eu quero levantar é: porque o futebol brasileiro, e o futebol europeu também, nunca aventaram qualquer tipo de freio ou tentativa de igualar as forças competitivas dos times de seus campeonatos nacionais?

Será que é legal ver todo santo ano o Barcelona e o Real Madrid dominarem as atenções da Espanha sozinhos? Ou então já entrar o ano sabendo que um dos três: Chelsea, Manchester United ou Arsenal irá ganhar a Premier League? Onde está a competitividade nessas ligas?

Nem digo sobre o Brasil, porque se Flamengo e Corinthians, da forma como é hoje, fossem minimamente bem administrados, ganhariam juntos 95% dos títulos nacionais e seriam fortes competidores da Libertadores todos os anos, pois teriam dinheiro para contratar grandes jogadores e não apenas refugos dispensados da Europa.

Enquanto isso, nos últimos 10 anos, tivemos oito campeões diferentes na MLB, na NFL e na NHL (sendo que a NHL não teve temporada 04/05 por greve), e seis na NBA.

Obs: para quem quiser um material mais completo sobre o assunto, recomendo o verbete da Wikipédia “Salary Cap”, em inglês, em que explica com bastante detalhe cada um dos 4 mecanismos e mais alguns outros: http://en.wikipedia.org/wiki/Salary_cap.

Peço desculpas pelo excesso de termos em língua estrangeira que coloco nesta coluna, mas estou tratando de um assunto totalmente negligenciado, não só no Brasil como em todo o mundo futebolístico mundial. Isso só vira notícia quando atrasa salário ou o clube "quebra"...

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Os Nerds na Vida Real - "Futebol Americano - Parte II"


Nesta sexta feira, mais uma coluna "Os Nerds na Vida Real", assinada pelo analista de sistemas Rodrigo Felga. Hoje ele retoma o tema da coluna anterior e fala sobre a tecnologia do jogo.

By the way, o leitor deve se lembrar que na coluna anterior havia dito que adotara o New York Giants para torcer. Pois fui pé quente: o time conquistou o Superbowl domingo passado, tornando-se assim o grande campeão da temporada 2011. A partida foi bastante emocionante e com um final dramático, que me deixou de pé na sala de casa - mas já posso dizer que gritei "é campeão" em 2012.

Vamos ao texto:

Futebol Americano - Parte II

Olá Amigos,

Dando continuidade ao post anterior, a coluna este mês falará sobre a parte tecnológica do futebol americano.

Quem nunca viu em um jogo de futebol o técnico se comunicando com auxiliares através de celulares e rádios? 

Na NFL existe todo um sistema de comunicação onde o técnico principal conversa com os outros técnicos e também com seus auxiliares através de um headset. Além disso existe na sideline um tipo de "orelhão" que os jogadores e técnicos (principalmente o quarterback) utilizam para se comunicarem com quem está vendo o jogo de uma posição privilegiada. 

Os árbitros também tem um sistema de comunicação separado e o que eu acho mais interessante no sistema é que eles tem a opção de falar no sistema de som do estádio: isso facilita muito para o público entender uma marcação do que simplesmente se utilizar do gestual.

A tecnologia que, creio eu, os árbitros de futebol americano mais gostam é a utilização de replays instantâneos para tirar a dúvida em uma jogada. 

O futebol americano, diferente do nosso futebol, possui muito mais regras objetivas do que subjetivas o que faz a utilização dos replays tornar o jogo muito mais justo. É raro ver alguém reclamando de arbitragem após um jogo de futebol americano. Os juízes podem solicitar o replay sempre que acharem necessário, já os técnicos podem solicitar a revisão das jogadas através dos desafios - que são limitados.

Os replays são sempre mostrados para todos no estádio, o que também auxilia o árbitro para que o mesmo não seja perseguido pela torcida. A NFL possui duas regras que eu acho muito interessantes: a primeira é que toda jogada onde ocorre um touchdown é obrigatoriamente revista e eu acredito que isto reduz significativamente a influência do juiz no resultado do jogo. 

A outra regra que eu considero que é ainda mais importante é que o juiz só muda o resultado de uma jogada se tiver 100% de certeza que foi feita uma marcação errada. Caso os replays não forneçam imagens que possam solucionar a dúvida, permanece a marcação realizada em campo.



Na último domingo aconteceu o SuperBowl XLVI, a final da NFL (acima, os melhores momentos), que é um dos eventos esportivos com maior audiência em todo o mundo. No 4º quarto o quarterback do NY Giants Eli Manning fez um lançamento sensacional para Mario Manninghan que recebeu a bola praticamente saindo de campo (no vídeo, aos 7´44).

Um lance muito difícil para a arbitragem e que não deixou nenhuma dúvida após o replay de sua legalidade. Entretanto, a não utilização do recurso no momento do lance poderia ter custado o SuperBowl aos Giants. Ponto para a tecnologia.

Neste momento é impossível não fazer um paralelo com o futebol, entretanto, as coisas não são tão simples quanto parecem. Nosso futebol possui muitas regras que são interpretativas, que geram discussão mesmo após a exibição de milhões de replays e essa talvez não fosse uma boa opção. Existem algumas alternativas e a tecnologia pode ajudar a tornar o futebol bem mais justo, mas isso é assunto para um próximo post.

A tecnologia também está presente fora do campo de jogo: as redes de televisão fazem uso constante de técnicas para deixar o jogo mais agradável para ao telespectador. Um exemplo disso é a utilização das linhas virtuais que mostram a quem está assistindo pela TV uma linha imaginária, demarcando onde o ataque deve chegar para conquistar o First Down. A análise de jogadas também é feita com os comentaristas "rabiscando" a tela para explicar uma ação.

Para concorrer com a televisão, os estádios também precisam investir em tecnologia.

O New Meadowlands Stadium, estádio situado em Nova Jersey e utilizado pelos clubes NY Giants e NY Jets recebeu recentemente um invetimento de US$ 100 milhões somente para tecnologia. Foram instalados 2.200 televisores que disponibilizam informações das partidas, bem como noticiário de transito e outras notícias relevantes aos espectadores. Também foram instaladas 500 antenas para internet sem fio que atendem a 10 mil espectadores.

A NFL está sempre implementando novas regras e agregando mais tecnologia ao jogo, provavelmente mais mudanças virão na temporada 2012-2013.

Até o próximo mês.