Mostrando postagens com marcador Marketing. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Marketing. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 4 de julho de 2012

O modelo de patrocínio das escolas de samba


Notícia divulgada ontem causou grande polêmica no meio especializado do carnaval. O Salgueiro foi autorizado a captar cerca de R$ 5 milhões pela Lei Rouanet para poder financiar o seu carnaval para 2013 – que conta com o título “Fama” e resulta de acordo de patrocínio com a revista "Caras".

Na prática, o “patrocínio” da revista à escola será abatido nos impostos que a editora Abril, dona da revista, teria a pagar ao governo. A escola é autorizada a captar e a empresa que já havia assinado contrato com a agremiação efetua o patrocínio via lei Rouanet - com renúncia fiscal. Em última instância o “patrocínio” pelo qual o Salgueiro vendeu seu enredo de 2013 sairá – se sair, mas esta é outra história – do seu, do meu, do nosso dinheiro, caro leitor. Pelo menos de acordo com o divulgado por fontes públicas – não tive acesso aos detalhes da negociação para confirmar se já houve pagamento de valores saídos direto do caixa da editora.

Em artigo sobre a profissionalização das escolas, que escrevi pouco antes do carnaval deste ano e que em versão reduzida foi publicado no jornal O Dia – que pode ser lido aqui – abordei este tema dentro de uma perspectiva maior que era a profissionalização das agremiações. Hoje, entretanto, abordarei de forma mais detalhada este aspecto.

O modelo atual de patrocínio nas escolas de samba carioca, em termos dominantes, é o da “venda” de seu enredo ou tema para o desfile de carnaval. A empresa paga – às vezes não, mas esta é outra história – para ser retratada no enredo.

Comparando, é como se a revista Caras patrocinasse uma peça de teatro onde a publicação fosse o tema da peça. Ou um filme tendo a Volkswagen como roteiro, para se falar de outro enredo praticamente confirmado – o da Acadêmicos do Grande Rio sobre a história do Fusca.

Como o leitor pode perceber, é algo completamente diferente – e porque não dizer, é anômalo. Entretanto, há explicação para este modelo direto de patrocínio onde quem paga a conta vira enredo.

De acordo com o regulamento do desfile de 2012 do Grupo Especial, organizado pela Liga Independente das escolas de samba (Liesa), o inciso VIII do artigo 26 proíbe o merchandising direto de empresas, de acordo com a redação abaixo:

VIII - não utilizar, distribuir ou apresentar-se com qualquer tipo de “merchandising” (implícito ou explícito) em Enredo, Alegorias, Adereços, Alas, Destaques, Samba-Enredo ou quaisquer outros meios, exceto:

a. nas vestimentas dos Empurradores de Alegorias;
b. em prospectos com letras do Samba-Enredo;
c. nos instrumentos musicais da Bateria, desde que sejam as marcas de seus respectivos fabricantes.

Parágrafo Segundo. Especificamente para os Incisos VII e IX deste Artigo, a penalização poderá ser de 1,0 (um) ponto para cada Inciso, a qual será proposta pela Comissão de Verificação das Obrigatoriedades Regulamentares, de que trata o Artigo 15 deste Regulamento, e aplicável a juízo do Presidente da LIESA.

Ou seja, nomes de empresas ou logomarcas não podem aparecer de forma explícita ou implícita sob pena de perda de pontos. Hoje, um ponto de penalização significa ficar de fora até das posições que dão direito a desfilar no Sábado das Campeãs, que é uma importante fonte de renda para as escolas.

Esta proibição gera uma limitação séria ao modelo: por exemplo, as agremiações não podem no início de seu desfile fazer o que observamos em shows e peças teatrais: anunciar o nome de todos os patrocinadores e “apoiadores” daquele espetáculo. O modelo indireto de patrocínio acaba tendo uma exposição menor – e isso diminui o valor percebido.

Por esse motivo também que todo ano temos os chamados “enredos CEP”: uma cidade ou um estado pagam para ser enredo, sem as limitações da citação de marcas, e reforçam a imagem para fins de turismo ou ainda no próprio cenário de negócios. Nos últimos anos descobriu-se um novo filão, que são os países – somente em 2013 teremos a Inocentes de Belford Roxo com a Coréia do Sul e a campeã Unidos da Tijuca com a Alemanha.

Acaba sendo um grande negócio, pois a cidade, estado ou país é exibido em rede mundial durante 82 minutos ininterruptos, fora a mídia pré e pós desfile. Por outro lado, em média há uma queda considerável na qualidade do espetáculo apresentado pelas agremiações, especialmente na qualidade dos sambas – o ocorrido com a Portela em 2012 é absolutamente é uma exceção, até porque não era originalmente um “enredo CEP”.

Outra limitação que o modelo de patrocínio institucional possui é a recusa da emissora dona dos direitos de televisão de aceitar que as escolas anunciem seus apoios na transmissão, repetindo o que faz no esporte. Somente as empresas que anunciam na própria detentora é que tem o direito de ter o seu nome citado, o que é muito bom para a Globo mas péssimo para o modelo de negócio do espetáculo.

O zelo é tão grande que após o “marketing” de emboscada feito pela Portela em 2010 – onde a marca “Positivo” apareceu no meio do samba e foi veiculado durante todo o tempo do desfile – a emissora passou até a controlar os sambas para que tal fato não se repetisse.

Dois bons exemplos disso foram o boicote ao desfile da Grande Rio em 2010 – o som era suprimido no refrão que falava do “Camarote Nº1” da Brahma, e o carro que enfocava tal camarote simplesmente não foi mostrado na transmissão – e a Unidos do Porto da Pedra teve seu samba sobre o iogurte alterado entre o final da disputa e a gravação do cd por influência da emissora.

A televisão protege seus interesses, o que é esperado, mas acaba prejudicando o modelo do espetáculo. Alguma espécie de "meio termo" deveria, a meu ver, ser buscado nesta questão.

Outra questão que acaba distorcendo o modelo de patrocínio é a falta de transparência das contas das escolas e o próprio histórico dos dirigentes da maioria delas. Acaba sendo mais garantido bancar o enredo em si do que apoiar um outro modelo sem ter como controlar a difusão da marca.

Obviamente, é uma “faca de dois gumes”: há muitos casos de agremiações que vendem seus enredos, assinam o contrato e no final não recebem um centavo – com toda a parte artística e musical comprometidas tanto pela falta de recursos teoricamente destinados á realização do carnaval como pela dificuldade de se criar uma boa história a partir de certos temas.

Há muito a avançar no sentido de se estabelecer um modelo mais adequado às características do espetáculo, mas que a meu ver passam por alterações no regulamento, negociações com a televisão e mudanças na própria governança das agremiações.

A partir do momento em que possa haver citações de marcas, as escolas poderiam trazer um “pede passagem” antes do desfile com as marcas dos patrocinadores, citando-os no início de seus desfiles e permitindo um modelo que apóie a confecção do desfile sem se envolver diretamente na parte artística. Uma negociação com a televisão poderia também ser estabelecida a fim de ampliar a exposição dos patrocinadores – maior exposição, maior valor de marca, maior valor de patrocínio.

Por outro lado as agremiações tem toda uma série de quesitos “extra Marquês de Sapucaí” que podem ser valorados e render contratos de marketing. Exploração de quadra, contratos com cervejarias, licenciamento de produtos e ainda programas de sócio torcedor, entre outros, também podem sofrer processo de precificação e atrair potenciais investidores.

Entretanto, apesar de iniciativas como a da Unidos da Tijuca e da São Clemente o marketing das agremiações ainda é bastante incipiente.

A análise deste post é bastante superficial, mas fica claro que o modelo atual é inadequado e que há alternativas que possam ser buscadas a fim de não haver interferências sobre a parte artística e cultural da festa.

Voltarei ao assunto.

(Foto: Fabrício Gomes)

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Made in USA - "Tim Tebow e o Marketing Esportivo: estudo de caso"


Nesta quarta, a coluna “Made in USA”, do advogado Rafael Rafic, faz um interessante estudo de caso de uma realidade que no exemplo é americana, mas que ocorre inclusive aqui no Brasil: o chamado “marketing de emboscada” esportivo.

Tim Tebow e o Marketing Esportivo: estudo de caso

Todos devem se lembrar da transferência de Peyton Manning para o Denver Broncos no futebol americano - ela foi o mote para a coluna sobre “Salary Cap”. O texto de hoje irá explorar uma conseqüência indireta da mesma.

Com a ida de Peyton para Denver, o quarterback titular do Broncos em 2011-2012, Tim Tebow, ficou sem lugar no time - seria um reserva de luxo apenas. Assim, o Denver o trocou para o New York Jets - onde ele também não será titular absoluto, diga-se de passagem.

Mas não quero aqui discutir a situação de jogo para Tebow, mas os limites do marketing extra-campo, oficial e não oficial.

Tebow, para quem não conhece, é uma figura nova no futebol americano. Surgiu na última temporada como um jogador jovem e promissor de um time tradicional (o Broncos) que não vinha passando por uma boa fase.

Além disso, ele se destacou por sua extrema devoção religiosa, herdada de seus pais que eram missionários batistas nas Filipinas, onde ele nasceu. Mal comparando, ele é o Kaká americano. Ainda nos tempos de universidade, ele escrevia referências bíblicas no eye black (aquela tinta preta usada abaixo dos olhos para reduzir reflexos) nos jogos.

Ao subir para a NFL, embalado por uma série espetacular de jogos pelo Broncos, ele criou uma verdadeira “Tebowmania”. Ainda mais com sua extrema devoção cristã em um local em que o protestantismo é levado a sério dentro dos EUA.

Inclusive foi criado um neologismo, já incorporado oficialmente ao léxico americano: “Tebowing”, para o ato de fazer a genuflexão em oração que Tebow sempre faz antes de entrar em campo e em jogadas importantes quando há tempo para isso – foto no início deste post.

The tebowing act

A onda “tebow-religosa” foi tão grande que nos jogos do Broncos só se via camisas do Broncos com o n° 15 dele e no lugar do nome estar escrito “Jesus”. Ato que Tebow não só aprovou como chegou a incentivar em algumas entrevistas.

Só que, de repente, colocam esse novo jogador, figura controvertida e ainda não acostumado a lidar com todos os percalços da fama no maior e mais cruel mercado dos EUA: New York.

Em New York a mídia chega a ser perversa. É uma cidade com um mercado consumidor esportivo enorme (não à toa todas as ligas profissionais tem, pelo menos, dois times na cidade) e com vários veículos de mídia disputando esse mercado.

Não raro nessa disputa eles acabam resvalando no sensacionalismo, sempre procurando (e arranjando) problemas dos jogadores (principalmente dos mais visados) apenas para colocar na manchete e vender jornais, o que acaba expondo mais os times e seus jogadores em âmbito nacional.

Inclusive o jornal de maior circulação, o NY Post, pertence à News Corporate, que vem a ser o conglomerado de mídia de Rupert Murdoch (aquele dos grampos clandestinos no Reino Unido). Preciso dizer algo mais sobre este ponto?

Com esse cenário, mal Tebow chegou e já temos um problema interessante, que, inacreditavelmente, não foi iniciado pelo NY Post.



Um site especializado em vender camisas não-oficiais (porém com imagens populares entre torcedores), o Cubby Tees.com, colocou a venda uma camisa inspirada no símbolo do novo time de Tebow, o NY Jets, porém com alguns símbolos trocados e escrito “My Jesus” no lugar de “NY Jets” e um peixe com uma cruz no lugar da bola de futebol americano (imagem acima).

Semana retrasada, os advogados de Tim Tebow enviaram uma notificação (no direito norte-americano é uma “cease and desist letter”, porém acredito que a figura mais próxima daqui é a notificação) obrigando o site a retirar de venda a camisa sob pena de Tebow acionar a empresa solicitando a retirada de venda judicialmente e o pagamento de danos a ele.

Na mesma alegava que o site estava se utilizando de práticas comerciais enganosas e usando o nome de Tebow indevidamente. O site se defendeu dizendo que eles são artistas e não querem desrespeitar os direitos de ninguém, porém não deixariam de proteger os seus direitos autorais. Também utilizou em sua defesa que a imagem é “positiva e inócua” e o gráfico é correto pois em tempo algum menciona Tebow ou o NY Jets.

Isso liderou a um rebuliço seguido de um belo debate nos EUA que quero estender ao Ouro de Tolo. Até que ponto o “marketing não-oficial” pode se utilizar de imagens conhecidas e protegidas por direitos autorais para, usando o “subconsciente coletivo”, faturar em cima?

A discussão se torna ainda mais interessante quando verificamos alguns aspectos desse problema.

Primeiro: apesar de claramente inspirado no logo do Jets, em momento algum a imagem em si faz referência direta ao logo oficial.

Segundo: em momento algum o nome de Tebow ou qualquer referência direta a ele é feita, mas apenas a uma figura universalmente conhecida e devotada: Jesus Cristo.

Terceiro: o site deixa bem claro que a camisa não é autorizada pelo NY Jets, por Tebow ou pelo “Son of god” (filho de Deus, em inglês).

Por outro lado, o site claramente em seu argumento de venda, relaciona a camisa a Tebow. Inicialmente pela própria URL da camisa que termina com “TebowJesus.html#”.

Depois, o próprio site escreve que a camisa “lays off the themes of Tebow's faith and his new team - borrowing from the J-E-T-S to promote J-E-S-U-S, with a fish for a football, and "MY" replacing "NY" with a color scheme that will be familiar to Jets fans”.

Em tradução livre: “brinca com os temas da fé de Tebow e seu novo time, pegando emprestado o J-E-T-S para promover J-E-S-U-S, com um peixe no lugar da bola de futebol americano e “MY” no lugar de “NY” com um esquema de cores que será familiar aos fans do Jets”.

Ou seja, em seu argumento de venda, o site realmente se utiliza da figura de Tebow para promover a camisa, no que é bastante parecido com o “Marketing de Emboscada” (vide nota), tema bastante em voga quando se estuda sobre marketing olímpico. Basicamente trata de se utilizar um evento esportivo para se associar e capitalizar em cima deles sem pagar qualquer direito ou patrocínio para o mesmo. O COI lutou (e continua lutando) intensamente contra isso, que quase matou a imagem do marketing olímpico após Atlanta 1996.

A discussão está posta e os argumentos de ambos os lados mostrados. Que o inteligente leitor do Ouro de Tolo tire suas próprias conclusões. Eu tenho as minhas, porém não as revelarei para evitar influências nos pensamentos de vocês.

Nota: o termo em inglês é “Ambush Marketing”, que traduzido ao pé da letra seria “marketing de camelô”. Como claramente não é esse o conceito que se quer trazer à tona, me utilizei da tradução feita por Marcus Vinícius Freire (ex-chefe de missão do COB e atual superintendente executivo de esportes do mesmo) em seu livro “Ouro Olímpico” (editora Casa da Palavra, selo COB Cultural).

P.S: a partir dessa coluna, a Made in USA irá tirar umas férias longas dos esportes americanos, mas por um bom motivo. Como “consultor não-oficial de esportes olímpicos” do Ouro de Tolo farei uma série de colunas especiais sobre os Jogos Olímpicos, aproveitando o fato de que eles já começam em 27 de julho (e devo tirar férias só para acompanhá-los). Também pretendo encerrar a série com os preparativos para a Rio 2016, que estou acompanhando de perto já tem quatro anos.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Algumas Notas sobre a Terceira Camisa do Flamengo


No início da tarde de hoje o Flamengo apresentou seu terceiro uniforme para a temporada 2011/2012, em festa realizada na sede da Gávea.

Antes dela, entretanto, um fato lamentável: o publicitário, conselheiro do clube e autor do blog rubro negro no Globoesporte.com Arthur Muhlemberg foi covardemente agredido pelo torcedor remunerado e incrivelmente sócio José Carlos Peruano. Este sujeito vive o dia inteiro no clube, se sustentando a partir de pequenos favores prestados a dirigentes, além de dirigir uma torcida organizada minúscula - não deve chegar a dez integrantes. O Ouro de Tolo se solidariza com Mulhemberg e repudia o fato, esperando que sejam tomadas as cabíveis providências.

A camisa lançada parece uma releitura do exemplar preto de goleiro: é totalmente preta com uma faixa vermelha na altura do peito. Como o leitor poderá ver abaixo, pareceu uma camisa de passeio, dentro da recente tendência de se aproximar os fardamentos de jogo a exemplares que sejam utilizados no dia a dia - a nova camisa da seleção da França, a qual possuo, é um bom exemplo disso. Acho salutar.

Também considerei melhor resolvida que a lançada nos mesmos moldes pela patrocinadora anteriora em 2008, embora abaixo de outros modelos já lançados pela empresa - que hoje talvez seja a melhor parceira do clube. Certamente fará parte de minha coleção, embora considere que o uniforme poderia ser mais ousado. 

Mas a fornecedora de material esportivo do clube não tem a menor culpa; ela faz o possível dentro dos estreitos e retrógrados padrões impostos pelo Conselho Deliberativo do clube - que aprova os exemplares.

Não vi lançamento de exemplar de goleiro para esta camisa, o que até se justifica tendo em vista que a bela camisa dourada do ano passada não foi posta à venda para o público. Até tenho o conjunto completo - short mais camisa, esta autografada - mas sem dúvida alguma é ítem de coleção.

Conceitualmente, a meu juízo o terceiro uniforme deveria estar ligado às tradições e à história do clube. Um ano azul e amarelo, outro evocando a "cobra coral", um terceiro homenageando a "papagaio de vintém", outro ano por exemplo homenageando a camisa amarela do Raul (que aliás ganhou uma leitura de passeio muito bonita) e mais alguns eventos ou marcos importantes de nossa história. A questão, uma vez mais, esbarra no Conselho Deliberativo do clube - basta lembrar o problema que foi aprovar a azul e amarela do ano passado, sendo que estas eram as primeiras cores do clube.

Mas o olhar para a história seria pedir demais desta gestão rubro negra.

A Olympikus - que merece ser saudada pela variedade de peças à disposição, embora sugeriria que fossem postos à venda os shorts de treino e de goleiro - também lançou uma linha casual, de extremo bom gosto. Pelo que vi das fotos somente o agasalho feminino, cinza, ainda não está sendo vendido nas lojas oficiais do clube.

Finalizando, seu preço estará nos mesmos patamares das camisas de jogo oficiais.


(Fotos: VipComm)

quinta-feira, 12 de maio de 2011

O Anti Marketing Rubro Negro


Já escrevi sobre o assunto outras vezes aqui, mas não resisto a voltar a postar sobre o absolutamente pífio modelo de gestão do Flamengo. Desta vez, sobre o marketing do clube.

A última foi a entrega da camisa do clube ao surfista Kelly Slater (acima), multicampeão da categoria e que se encontra no Brasil para a etapa local do Mundial da categoria. A idéia dos responsáveis pela marca do clube é de que a foto "corre o mundo" e aumenta a exposição e o conhecimento da marca. Certo.

Entretanto, como bem escreveu ontem em uma das listas de discussão o colunista desta Ouro de Tolo Walter Monteiro, "o Flamengo deve ser o campeão mundial de entrega de camisas a celebridades". E isto é fato, basta se lembrar do episódio envolvendo o presidente americano Barack Obama - onde a Presidente Patrícia Amorim passou pelo ridículo de trazer a camisa no corpo para driblar a segurança e, pior, ainda se orgulhou disso.

A questão principal, a meu ver, nem é a entrega ou não das camisas, mas seu significado prático e estar como um dos principais pontos da estratégia de marketing do clube. A impressão que eu tenho é de que ao entregar estas camisas os responsáveis pelo setor no clube imaginam que o clube passará a rivalizar em conhecimento e torcedores com o Barcelona, o Real Madrid ou o Manchester United, por exemplo. Obviamente, nada mais falacioso.

Ainda mais quando percebemos que questões chave e muito mais importantes para o futuro a curto prazo do clube não são contempladas de forma adequada.

A primeira delas é o patrocínio "master". Estamos em meados de maio, tendo um chamariz de atração que nenhum clube brasileiro possui - a presença de Ronaldinho Gaúcho no elenco - e a camisa do clube se encontra absolutamente "limpa" no peito e nas costas. Isso é bom para o torcedor como eu que quer ver o "Manto Sagrado" imaculado, mas abre-se mão de uma receita que é importantíssima para o fechamento das contas do clube. Ainda mais como se sabe o quão deficiente é o modelo de gestão do Flamengo.


Como pode se ver na imagem acima - do treino da última terça feira em Fortaleza - a camisa do clube possui apenas dois anunciantes: o BMG - que como explicamos em post recente é credora do clube - e a TIM, empresa de telefonia. São duas empresas que anunciam em vários times e que procuraram o clube a fim de ter suas marcas expostas.

A Olympikus, patrocinadora de uniformes do clube, também procurou o Flamengo quando dos estertores do contrato com a fornecedora anterior. Se os valores são vantajosos deve-se muito mais ao interesse da Azaléia que ao esforço do marketing rubro negro.

Aliás, esta é uma característica que vem desde a diretoria anterior: uma certa inação. Não é o departamento responsável pelo setor no clube que prospecta potenciais clientes, mas sim as empresas é que demonstram interesse. Não parece haver uma postura pró-ativa na prospecção de parceiros, de modo que ficamos aos sabores dos humores dos departamentos de marketing de grandes empresas. 

Ao que me parece também a parceria efetivada com a Traffic quando da contratação de Ronaldinho também contribuiu para esta postura reativa: há uma impressão de que a parceira deve buscar estes anunciantes, não o clube.

Lembro aos leitores, também, que recentemente o clube rejeitou uma proposta de R$ 18 milhões da Hyundai, fabricante coreana de automóveis, pelo patrocínio master até o final deste ano. A alegação foi de que "o valor era baixo". 

Entretanto, 18 milhões de reais por sete meses equivaleriam a praticamente 31 milhões de reais anualizados, o que corresponde à expectativa inicial demonstrada pelo Flamengo na imprensa. Não conheço os detalhes da proposta mas, a princípio, tal recusa me parece incompreensível sob argumentos lógicos, legais e racionais.

Não se pode descartar, também, a possibilidade de que tal proposta não seja interessante à Traffic e ao próprio Ronaldinho - que são uma espécie de "sócios" do patrocínio master acima de um determinado valor conforme o contrato firmado quando de sua contratação. São apenas conjecturas de minha parte, mas que devem ser levadas em conta na análise.

Outro ponto que mostra que o clube tem na verdade um "Departamento de Anti Marketing" é o fato de que o clube não tem um projeto de atrair seu mercado consumidor, fidelizá-lo e transformar este imenso potencial em receitas.

O chamado "Cidadão Rubro Negro" é algo absolutamente inusual: em sua "versão Ouro" o adepto paga cerca de 400 reais por ano para na prática simplesmente ter direito de compra prioritária de ingressos em três ou quatro jogos decisivos por ano. É risível.

É algo que decididamente não representa o anseio do torcedor, ainda mais quando comparado aos planos de "sócio-torcedor" de outros clubes. Sabemos que não há interesse político - desde a diretoria anterior, sejamos justos - de se ter um plano destes no Flamengo, pois não existe a mais remota intenção de democratizar as esferas de poder rubro negras. Inclusive na proposta de reforma estatutária que está em elaboração retira-se o direito de voto dos sócios, com o presidente passando a ser eleito apenas pelo Conselho Deliberativo.

Entretanto, algum tipo de fidelização do torcedor deveria e poderia haver, de forma a atender este potencial de consumo existente. Na prática, quem acaba explorando este mercado são as parceiras, em especial a Olympikus, com o clube levando apenas as "migalhas" de tais receitas. As empresas estão erradas? Não.

Outro bom exemplo do que digo está no recente lançamento de uma série de relógios de alto luxo com a marca do clube: simplesmente colocaram "outdoors" gigantescos com as fotos dos campeões do mundo Andrade e Júnior sem pedir a necessária autorização do uso de imagem. Erro absolutamente primário.

Estes são bons exemplos de como o modelo de gestão rubro negro está infinitamente longe do que deveria ser a praxe. E fico me perguntando o que pensam os diretores do Barcelona, por exemplo, ao ver fotos como a que abre este post.

Voltarei ao tema.



segunda-feira, 12 de abril de 2010

Azul e amarela - a definitiva


A resolução não está muito boa, mas vazou o tão esperado terceiro uniforme rubro-negro, homenageando a história do remo do clube e suas primeiras cores - como contei no primeiro post sobre o tema em dezembro.

Na prática, ele leva o mesmo layout do uniforme número um, apenas trocando as cores e tendo o escudo do remo. Decisão sensata e que valoriza a história do clube e as possibilidades de ganho de marketing. O patrocínio também ficou mais integrado ao exemplar, ao contrário da aberração em que está no primeiro uniforme.

Por outro lado, aqueles que não conhecem as nossas raízes possuem uma boa oportunidade para assim o conhecerem. Já estou na fila para a compra de minha unidade, até porque a camisa ficou muito bonita. Acredito que a Olympikus antecipe os planos de lançamento, originalmente marcado para o segundo semestre a fim de evitar a pirataria.

A camisa será utilizada apenas uma vez por mês e somente fora do Maracanã, conforme determinado pelo Conselho Deliberativo do clube. É uma homenagem aos bravos remadores da Pherusa, sem os quais não haveria esta história tão grandiosa e vitoriosa.

A propósito, segue abaixo uniforme de treino que já vem sendo utilizado pelo remo rubro-negro em suas práticas diárias. A confecção também é da Olympikus, ou seja é um produto fornecido pela empresa:

(Foto: Antonio Bordallo - Minhas Camisas)

E já que estamos falando de Flamengo, não me lembro de uma freguesia tão grande em jogos decisivos como a que ocorre atualmente entre Flamengo e Vasco. Desde 1988 não perdemos uma final de campeonato, e se o clube de São Cristóvão chegou a ganhar duas finais de turno no final do milênio passado hoje nem em semifinal isto ocorre.

Na última decisão em que perdemos do Vasco eu estava na oitava série. Fiz segundo grau, faculdade, me formei em Economia, trabalho há dezesseis anos na área e a freguesia continua. Já virou até "Cartão Fidelidade" nestes tempos de marketing aflorado...

domingo, 24 de janeiro de 2010

Institutos de pesquisas, empresas jornalísticas e anunciantes



Hoje teremos um segundo texto a ser repercutido aqui.

Mais uma vez o amigo Marco Aurélio Mello, do excelente "Doladodelá" - ao qual recomendo uma visita mais detida ao leitor - publicou esclarecedor texto, que republico aqui.

Acredito que os atores deste não sejam tão difíceis de determinar. É estarrecedor o que é narrado, e bom alerta para as pesquisas eleitorais de 2010.

Deleitem-se.

"Da série se perguntar, eu nego. Estamos em 2001. O diretor de programação vaidoso e exibicionista entra na redação de São Paulo, a maior do país, saca o celular de última geração e faz uma discagem rápida. Testemunhas ouvem o seguinte diálogo:

- É o Mont Blanc? (nome fictício, em homenagem às canetas que foram moda entre os emergentes, tempos atrás).

Do outro lado da linha, alguém responde e o tal diretor logo emenda:

- Oh Mont Blanc, assim não dá cara. Em terceiro lugar não dá. O Rio tá me enchendo o saco com essa história. Você precisa dar um jeito nisso.

O interlocutor parece argumentar, quando subitamente é interrompido:

- Não quero saber! Você precisa dar um jeito nisso! É ou não é por amostragem? Então, não tem probabilística coisa nenhuma. Do jeito que está não dá para ficar. Você vai ter que mudar isso! E desliga.

Curiosa, nossa testemunha, primeiro, quer saber se o tal Mont Blanc é quem está pensando e, em segundo lugar, se o diretor de programação da emissora teria mesmo poder para interferir no trabalho do homem que é avalista dos índices de medição de audiência, num sistema até hoje nebuloso, cuja a fórmula jamais foi bem explicada. A testemunha conseguiu confirmar a identidade do sujeito, mas não se aquele telefonema tinha mesmo a implicação que suspeitou-se na época. E qual seria?

Naquele ano, outra emissora de televisão levou ao ar um programa que, aos domingos, batia recordes de audiência. Artistas foram confinados numa casa e monitorados 24 horas por dia. O animador era o próprio patrão e a atração fez dos participantes celebridades da noite para o dia. Aos domingos, quando havia as eliminações, não raro a emissora líder amargava um terceiro lugar, fato inédito até então. Coincidência ou não, depois daquele telefonema, os números da atração foram deixando a pujança de lado até que o segundo programa naufragou e o projeto foi engavetado. O próprio patrão, desconfiado, estava decidido a mudar as regras do jogo e criar um instituto autônomo de medição. Foi quando o monopólio entrou no 'reality show'. Numa ação intimidatória, enquadrou as agências de publicidade e o assunto do instituto independente logo caiu no esquecimento 'por pressão do mercado'. A lógica se mantém a mesma até hoje. E pior, todas as decisões são pautadas por esses números, tanto pela emissora líder, quanto pelas concorrentes e até, pasmem, pelos patrocinadores, entre eles estatais e Governos. Portanto, nas próximas eleições, vale tomar todo o cuidado com aspectos como: metodologia, série histórica, margem de erro e, principalmente, os interesses ocultos. Aí residem todos os sortilégios da manipulação. "

Os Estaduais deveriam acabar ?



Domingo, dia de repercutir bons textos no Ouro de Tolo.

Começo com um texto vindo de um novo blog, o "Grana Futebol Clube", dos mesmos idealizadores do "Flamengo Eternamente", nosso parceiro.

A tese que o blog defende é polêmica: a de que os Campeonatos Estaduais deveriam acabar.

Pessoalmente, minha posição é parecida com a defendida pelo texto, mas por motivos diferentes. Com a duração atual de quatro meses e 23 datas considero que seja inviável; mas até pela tradição centenária acho que seria interessante como torneio de início de temporada, com um mês e meio no máximo - o que daria aproximadamente dez a doze datas.

Vamos ao texto, o primeiro de hoje.

"A cada início de ano começam os estaduais e começam também as mesmas perguntas: Ainda há espaço para os estaduais? Eles não deveriam acabar? Alguns dos mais renomados especialistas em Marketing afirmam que os clubes teriam muito mais lucro trocando jogos contra adversários fracos por competições mais rentáveis.

Minha opinião é: trata-se de um exemplo clássico de meia verdade. É verdade que os times teriam um retorno imediato, mas em minha opinião teriam uma perda muito grande a médio e longo prazo. Enquanto vocês leem essas linhas com cara de espanto, eu explico.

Os estaduais pelo Brasil criam a sensação em diversos times de que eles são grandes. O fato de disputarem campeonatos e terem a chance de ser campeões faz com que suas torcidas acreditem mesmo que eles podem ganhar qualquer coisa. E o resultado disso? Enquanto na Espanha um treinador de um clube como o Deportivo La Coruña se diz satisfeito por perder em casa de pouco de um Barcelona da vida, no Brasil um torcedor de um Náutico (com todo respeito aos torcedores do Timbu) ACHAM MESMO que o time deles tem a obrigação de ganhar de um Corinthians, Flamengo, Internacional ou quem mais ouse pisar em seu sagrado campo.

E o curioso é que os jogadores também acreditam e essa confiança faz com que, muitas vezes, ganhem mesmo. Acredito que isso ajude a explicar o surgimento de tantos bons jogadores em qualquer canto desse Brasil. Que faz com que um Atlético Sorocaba chegue na Ásia e arranque um empate no campo adversário de uma Seleção classificada para a Copa. Que faz com que os Brasileiros tenham uma confiança que raros jogadores europeus tenham.

Minha opnião é que a resposta da pergunta-título desse humilde post é: NÃO. Podemos achar um meio termo, fazendo estaduais mais curtos, com apenas 8 clubes jogando todos contra todos em turno único. Mas acabar com os estaduais seria um crime contra o futebol brasileiro e um atentado à essência do que torna o nosso futebol o melhor do mundo."

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Anti Marketing

Tem certas coisas que eu não entendo.

Ontem o Flamengo anunciou os dois novos reforços para o seguimento do Campeonato Brasileiro, Maldonado e Álvaro. O primeiro, inclusive, muito bom jogador.

Porém, o marketing rubro negro deu mais uma prova de sua total falta de noção. Na hora dos jogadores vestirem a camisa, um aparece com o patrocinador atual e o outro, com o próximo - que só estréia em outubro !

Analisando os fatos, vemos que a Vice Presidência de Marketing do clube, uma vez mais, passa por cima de um aspecto básico da questão, que é ter um bom relacionamento com seus parceiros.

Na ânsia de "fazer um agrado" com a companhia petroleira, que pagou um valor muito aquém da exposição real da marca no mercado - mas fundamental para pagar um mês de salários - simplesmente desrespeitou o contrato em vigor com a Olympikus, que vem sendo parceira atuante, inclusive oferecendo ao clube benefícios que, a priori, não estariam no contrato. Haja visto o pagamento de parte dos salários do jogador Adriano.

Não conheço minúcias do contrato com a Olympikus, mas acredito que o clube, no mínimo, esteja sujeito a receber uma notificação pelo fato, provado pela foto acima. Trabalho com contratação de serviços e sei que esta é uma cláusula básica e padrão em qualquer acordo quando há descumprimento de cláusulas.

Imaginem o prejuízo de imagem que a empresa teve ao ver que no jornal de hoje está a foto da camisa com duas marcas diferentes. Certamente irá confundir o torcedor médio, dando à petroleira um benefício de exposição pelo qual ela não pagou - haja visto que o contrato só se inicia em outubro.

Na prática, a Olympikus é que fez o desembolso financeiro para que aparecesse a imagem da distribuidora de derivados de petróleo nos sites e nos jornais impressos de hoje.

Sinceramente, o marketing atual rubro negro é um bom microcosmos da (falta de) competência atual daqueles que dirigem o Mais Querido. O mais inacreditável é que, teoricamente, este é o único departamento "profissionalizado" do clube. Imagina se não fosse...

E o pior é que você olha para os candidatos potenciais às eleições e é mais do mesmo. Mais amadorismo, mais falta de competência, mais descaso.

O clube precisa de uma mudança radical.

(Foto: Lancenet)

Atualização às 14:24: obtive a informação de que a Olk autorizou a exposição da marca Ale na apresentação dos atletas. Mesmo assim, não retiro uma vírgula do que escrevi aqui, porque, sem dúvida alguma, é uma forma bastante peculiar de auto-prejuízo à imagem. Sem dúvida alguma, a fornecedora de material esportivo optou por perder agora para ganhar à frente.