Sábado, dois de janeiro, início de férias.
Como é sábado, é dia de "Sobretudo", coluna do amigo e publicitário Affonso Romero.
Hoje o tema são as desastradas tentativas de conhecer Paraty, no sul do estado - cidade que adoro e que já foi tema de post aqui no blog.
Abaixo, segue o texto. Está impagável.
"Paraty: para mim, nunca mais.
Conhecia Paraty apenas pelas fotos dos suplementos turísticos dos jornais. Tinha curiosidade em conferir pessoalmente as belezas naturais e o sítio histórico. Talvez pela distância, talvez pelo fato de eu ir muito mais vezes para a direção de Cabo Frio, talvez por um pouco de preguiça ou permanente economia de guerra, ou sabe Deus lá por que motivo inconsciente, eu nunca havia me dignado a ir até a cidade.
Isso foi em 1994, o Brasil acabara de vencer a Copa. Eu já havia morado em São Paulo, estava casado pela primeira vez, havia voltado ao Rio e, finalmente, me estabelecido em Petrópolis. Tinha uma pequena loja e raramente podia me ausentar por mais de dois dias, nem mesmo para as festas de final de ano.
Meus avós maternos, já na casa dos 80 anos, não viajavam comigo já há algum tempo. Na minha infância, anualmente íamos para São Lorenço, em Minas, e fazíamos todo o circuito das águas.
Meu avô, padrinho e xará Affonso cismou que tinha que fazer uma viagem de férias comigo, minha esposa e minha avó “antes de morrer” (o que, felizmente, ainda levaria alguns anos). E, assim, passamos uns poucos dias em Cambuquira, todos transportados pelo meu Escort, levando a bordo da barriga da minha esposa o Eric, nosso único filho que viria a nascer dali a alguns meses.
Na volta, pegamos aquelas estradinhas estreitas descendo as serras mineiras até a Dutra. Passamos relativamente próximos a Aparecida e, como o domingo era ensolarado e tranquilo, sugeri uma visita à Basílica, passeio que eu sabia que meus avós adorariam fazer. Desviamos um pouco do roteiro inicial, mas tudo seguia além dos melhores planos. Almoçamos e voltamos à estrada.
Foi quando eu abusei da sorte.
Em Guaratinguetá, uma placa indicava uma pequena estrada para Paraty. Conferimos num pré-histórico Guia 4 Rodas, a estrada era asfaltada até Cunha, última cidade paulista. De lá até o litoral fluminense, estaria “em asfaltamento”. Pela idade do guia, eu presumi que a obra já estava pronta, movido pelo otimismo de quem via ali a oportunidade de conhecer finalmente Paraty.
Passamos da entrada de Cunha e o asfalto seguiu perfeito por mais algum tempo. Vi à frente uma pequena descida além da qual não se enxergava a estrada. Desviei o olhar para a placa que indicava a divisa entre os dois Estados e, de repente, o carro caiu num aparente abismo. Na verdade, um desnível na estrada, de uns 50cm, entre a camada de asfalto e a terra crua que passava a cobrir o caminho. Para um carro baixo, não havia volta. E o jeito foi tentar vencer aqueles 20 Km que ainda faltavam até o final da Serra do Mar no braço e na coragem.
Levei umas três horas para descer os primeiros 18 Km. A estrada transformara-se numa picada de lama e pedras. Começou a chover fino e, por fim, a cair a tarde. Até que, já próximos ao destino, o fundo baixo do Escort ficou preso em uma pedra, tirando do piso as rodas de tração. Forcei um pouco. Quando o veículo cedeu, vi que a canaleta de ligação do combustível entre tanque e motor rompera-se na pedra. Fim de viagem, pelo menos para o carro.
Deixamos o veículo e a bagagem para trás e começamos a descer a pé, com lama até o meio das canelas, em busca de abrigo. Imaginem a cena e o meu desespero: eu, minha esposa grávida e meus avós de 80 anos, quase à noite, sem viva alma por perto, caminhando na lama até Paraty. Felizmente, fomos resgatados por uma coluna de jipes trilheiros, depois de uns quinze minutos de caminhada. Nossos salvadores haviam acabado de passar pelo carro abandonado e simplesmente não acreditavam no que viam. Disseram, depois, que a única forma possível de um carro baixo chegar até ali seria içado por um helicóptero. Ou levado pela falta de alternativa, respondi eu.
Fomos deixados num pequeno hotel na entrada da cidade. No dia seguinte, enquanto meus avós e minha esposa conheceriam a cidade trajados com calças enlameadas, eu conseguia um corajoso mecânico em sua Brasília adaptada para, juntos, resgatarmos o Escort. A operação ficou cara mas, por fim, consegui levar todos relativamente salvos até o Rio de Janeiro no final daquela segunda-feira. E não conheci nada de Paraty.
Muitos anos depois, passei um fim de semana na casa de uma amiga em Angra dos Reis, já acompanhado de minha segunda esposa. Na volta, outro domingo claro de verão, resolvemos de comum acordo dar uma passada em Paraty para conhecermos a cidade. A estrada – conferimos antes com quem a conhecia bem – não reservaria novas surpresas. Então, saímos um pouco mais cedo da casa de nossa amiga, na direção contrária ao Rio.
Quando estávamos nos aproximando de Paraty, formou-se uma tempestade tropical. A chuva caiu forte por quase duas horas. Tempo suficiente para estragar completamente o passeio. Seguimos teimosos até o Centro Histórico, caminhamos encharcados por aquelas escorregadias pedras pés-de-moleque e, entre uma gota e outra de chuva grossa, pudemos conhecer um pouco da paisagem colonial. Na volta ao Rio, tosse e espirros que durariam uma semana. Mas, bem ou mal, eu conhecera Paraty.
Estou em meu terceiro e definitivo casamento. Agora, morando no ABC paulista. Passamos o Natal em Petrópolis, na casa de meus pais. A viagem, de carro, estava programada pela Dutra. Como o dia amanhecia ensolarado – incrível, mas eu não aprendi nada sobre os riscos de um dia ensolarado e aparentemente calmo de verão – mudamos de ideia e resolvemos de última hora viajar pelo litoral. Um caminho que é quase o dobro do original, com tempo de viagem mais que dobrado.
Mas quem tinha pressa? A paisagem valia a desvio de rota. Além do mais, seria a oportunidade de conhecer Paraty. O paciente leitor deve estar se rindo de minha ingenuidade e estupidez. Eu deveria saber que algo estava por acontecer.
Só que, desta vez, era previsível. E só por absoluto otimismo eu não previ que o sol estaria inclemente por volta do meio-dia. E já eram duas da tarde quando finalmente passamos por Paraty. Nosso carro não tem ar condicionado, minha esposa odeia calor, viajávamos com o carro cheio de presentes e bagagem e na companhia de uma sobrinha e da Pandora, nossa imbatível Lhasa Apso. Chegamos arrasados ao Centro Histórico, à procura de um restaurante que aceitasse que a Pandora ficasse próximo à porta.
Pedi filé de peixe, mas minha esposa é alérgica a qualquer coisa que tenha passado perto do mar, e pediu um filé de frango. É provável que, naquele restaurante, todas as frigideiras tenham restos de óleo usado em fritura de peixe. Isso, somado ao calor e ao cansaço, acabou com o resto de coragem, disposição e saúde que sobrara à minha esposa. Ao fim da refeição, ninguém tinha mais vontade ou paciência para fazer turismo. O casario histórico nos parecia apenas uma velharia desconfortável. As pedras do piso das ruas, conservadas em seu primitivismo colonial, pareceram às nossas solas de sapatos e aos pneus do carro, obstáculos quase intransponíveis.
Chegamos em Petrópolis já depois do sol se por. Sem a menor vontade de dar outra oportunidade a Paraty. Reconheço: a culpa não é da cidade. Nas três oportunidades, houve falta de planejamento, otimismo exagerado em relação ao clima, acessos, tempo gasto. Mas eu passarei os próximos anos tendo pesadelos com a paradisíaca paisagem de Paraty. Para mim, nunca mais. Pelo menos, por enquanto."
Conhecia Paraty apenas pelas fotos dos suplementos turísticos dos jornais. Tinha curiosidade em conferir pessoalmente as belezas naturais e o sítio histórico. Talvez pela distância, talvez pelo fato de eu ir muito mais vezes para a direção de Cabo Frio, talvez por um pouco de preguiça ou permanente economia de guerra, ou sabe Deus lá por que motivo inconsciente, eu nunca havia me dignado a ir até a cidade.
Isso foi em 1994, o Brasil acabara de vencer a Copa. Eu já havia morado em São Paulo, estava casado pela primeira vez, havia voltado ao Rio e, finalmente, me estabelecido em Petrópolis. Tinha uma pequena loja e raramente podia me ausentar por mais de dois dias, nem mesmo para as festas de final de ano.
Meus avós maternos, já na casa dos 80 anos, não viajavam comigo já há algum tempo. Na minha infância, anualmente íamos para São Lorenço, em Minas, e fazíamos todo o circuito das águas.
Meu avô, padrinho e xará Affonso cismou que tinha que fazer uma viagem de férias comigo, minha esposa e minha avó “antes de morrer” (o que, felizmente, ainda levaria alguns anos). E, assim, passamos uns poucos dias em Cambuquira, todos transportados pelo meu Escort, levando a bordo da barriga da minha esposa o Eric, nosso único filho que viria a nascer dali a alguns meses.
Na volta, pegamos aquelas estradinhas estreitas descendo as serras mineiras até a Dutra. Passamos relativamente próximos a Aparecida e, como o domingo era ensolarado e tranquilo, sugeri uma visita à Basílica, passeio que eu sabia que meus avós adorariam fazer. Desviamos um pouco do roteiro inicial, mas tudo seguia além dos melhores planos. Almoçamos e voltamos à estrada.
Foi quando eu abusei da sorte.
Em Guaratinguetá, uma placa indicava uma pequena estrada para Paraty. Conferimos num pré-histórico Guia 4 Rodas, a estrada era asfaltada até Cunha, última cidade paulista. De lá até o litoral fluminense, estaria “em asfaltamento”. Pela idade do guia, eu presumi que a obra já estava pronta, movido pelo otimismo de quem via ali a oportunidade de conhecer finalmente Paraty.
Passamos da entrada de Cunha e o asfalto seguiu perfeito por mais algum tempo. Vi à frente uma pequena descida além da qual não se enxergava a estrada. Desviei o olhar para a placa que indicava a divisa entre os dois Estados e, de repente, o carro caiu num aparente abismo. Na verdade, um desnível na estrada, de uns 50cm, entre a camada de asfalto e a terra crua que passava a cobrir o caminho. Para um carro baixo, não havia volta. E o jeito foi tentar vencer aqueles 20 Km que ainda faltavam até o final da Serra do Mar no braço e na coragem.
Levei umas três horas para descer os primeiros 18 Km. A estrada transformara-se numa picada de lama e pedras. Começou a chover fino e, por fim, a cair a tarde. Até que, já próximos ao destino, o fundo baixo do Escort ficou preso em uma pedra, tirando do piso as rodas de tração. Forcei um pouco. Quando o veículo cedeu, vi que a canaleta de ligação do combustível entre tanque e motor rompera-se na pedra. Fim de viagem, pelo menos para o carro.
Deixamos o veículo e a bagagem para trás e começamos a descer a pé, com lama até o meio das canelas, em busca de abrigo. Imaginem a cena e o meu desespero: eu, minha esposa grávida e meus avós de 80 anos, quase à noite, sem viva alma por perto, caminhando na lama até Paraty. Felizmente, fomos resgatados por uma coluna de jipes trilheiros, depois de uns quinze minutos de caminhada. Nossos salvadores haviam acabado de passar pelo carro abandonado e simplesmente não acreditavam no que viam. Disseram, depois, que a única forma possível de um carro baixo chegar até ali seria içado por um helicóptero. Ou levado pela falta de alternativa, respondi eu.
Fomos deixados num pequeno hotel na entrada da cidade. No dia seguinte, enquanto meus avós e minha esposa conheceriam a cidade trajados com calças enlameadas, eu conseguia um corajoso mecânico em sua Brasília adaptada para, juntos, resgatarmos o Escort. A operação ficou cara mas, por fim, consegui levar todos relativamente salvos até o Rio de Janeiro no final daquela segunda-feira. E não conheci nada de Paraty.
Muitos anos depois, passei um fim de semana na casa de uma amiga em Angra dos Reis, já acompanhado de minha segunda esposa. Na volta, outro domingo claro de verão, resolvemos de comum acordo dar uma passada em Paraty para conhecermos a cidade. A estrada – conferimos antes com quem a conhecia bem – não reservaria novas surpresas. Então, saímos um pouco mais cedo da casa de nossa amiga, na direção contrária ao Rio.
Quando estávamos nos aproximando de Paraty, formou-se uma tempestade tropical. A chuva caiu forte por quase duas horas. Tempo suficiente para estragar completamente o passeio. Seguimos teimosos até o Centro Histórico, caminhamos encharcados por aquelas escorregadias pedras pés-de-moleque e, entre uma gota e outra de chuva grossa, pudemos conhecer um pouco da paisagem colonial. Na volta ao Rio, tosse e espirros que durariam uma semana. Mas, bem ou mal, eu conhecera Paraty.
Estou em meu terceiro e definitivo casamento. Agora, morando no ABC paulista. Passamos o Natal em Petrópolis, na casa de meus pais. A viagem, de carro, estava programada pela Dutra. Como o dia amanhecia ensolarado – incrível, mas eu não aprendi nada sobre os riscos de um dia ensolarado e aparentemente calmo de verão – mudamos de ideia e resolvemos de última hora viajar pelo litoral. Um caminho que é quase o dobro do original, com tempo de viagem mais que dobrado.
Mas quem tinha pressa? A paisagem valia a desvio de rota. Além do mais, seria a oportunidade de conhecer Paraty. O paciente leitor deve estar se rindo de minha ingenuidade e estupidez. Eu deveria saber que algo estava por acontecer.
Só que, desta vez, era previsível. E só por absoluto otimismo eu não previ que o sol estaria inclemente por volta do meio-dia. E já eram duas da tarde quando finalmente passamos por Paraty. Nosso carro não tem ar condicionado, minha esposa odeia calor, viajávamos com o carro cheio de presentes e bagagem e na companhia de uma sobrinha e da Pandora, nossa imbatível Lhasa Apso. Chegamos arrasados ao Centro Histórico, à procura de um restaurante que aceitasse que a Pandora ficasse próximo à porta.
Pedi filé de peixe, mas minha esposa é alérgica a qualquer coisa que tenha passado perto do mar, e pediu um filé de frango. É provável que, naquele restaurante, todas as frigideiras tenham restos de óleo usado em fritura de peixe. Isso, somado ao calor e ao cansaço, acabou com o resto de coragem, disposição e saúde que sobrara à minha esposa. Ao fim da refeição, ninguém tinha mais vontade ou paciência para fazer turismo. O casario histórico nos parecia apenas uma velharia desconfortável. As pedras do piso das ruas, conservadas em seu primitivismo colonial, pareceram às nossas solas de sapatos e aos pneus do carro, obstáculos quase intransponíveis.
Chegamos em Petrópolis já depois do sol se por. Sem a menor vontade de dar outra oportunidade a Paraty. Reconheço: a culpa não é da cidade. Nas três oportunidades, houve falta de planejamento, otimismo exagerado em relação ao clima, acessos, tempo gasto. Mas eu passarei os próximos anos tendo pesadelos com a paradisíaca paisagem de Paraty. Para mim, nunca mais. Pelo menos, por enquanto."

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