Com uma semana de intervalo, está de volta a nossa coluna "Sobretudo", assinada pelo publicitário e amigo Affonso Romero.
Hoje o tema da coluna é um misto de confusões de vida cotidiana com o documentário recém-lançado sobre Chacrinha. A propósito, a ilustração deste post é o abre-alas da Imperatriz Leopoldinense em 2007, em seu enredo sobre o bacalhau.
Vamos ao texto.
"Voces Querem Bacalhau? (ou, sob o signo do caos nasce uma coluna com sete dias de atraso)
Quarta-feira, cinema às 19h30 no Mauá Plaza Shopping. Já estava combinado desde a véspera: eu sairia do trabalho na hora certa - coisa rara, aliás - e chegaria bem em cima do início da sessão. Veríamos a nova versão da história de Sherlock Holmes, interpretado pelo sempre surpreendente Robert Downey Jr. e coadjuvado pelo talentoso Jude Law como Watson. Se o filme confirmasse minhas expectativas e tivesse alguma significância, seria o tema desta coluna.
Desta, não. Da coluna de sábado passado, que eu não escrevi a tempo pelos motivos que o amigo aí compreenderá até o final da leitura.
Ainda quarta-feira, trabalho até as 18h10 na Barra Funda. Só quinze minutos além do previsto, coisa pouquíssima, isso nem é atraso. Dia corrido, caótico, minha atenção concorrida por alguns assuntos "prioritários". Já repararam que "prioritário" é uma palavra que perdeu totalmente o sentido no mundo atual? "Prior" é um prefixo que supõe, na origem, um só fato ou ação. Se tem mais de um, não é prioridade coisa nenhuma. No máximo, é urgente, necessário. Se for. Porque, hoje em dia, no turbilhão de "urgências" do dia-a-dia qualquer coisinha vai furando a fila e se tornando "prioritária".
Ainda assim, consegui a proeza de sair na hora. Ou quase. Plataforma cheia, transferência de linha lenta, fim de tarde chuvoso. E eu percebo que não chegarei a tempo ao cinema. Com sorte, uns 10 minutos a mais do início do filme. Pode parecer pouco, mas minha companhia é exigente. Ok, ela merece o meu melhor.
Quarta-feira, algum lugar entre as estações Luz e Mauá, 19h00, toca o celular. Esbarro o cotovelo no passageiro ao lado e atendo. Nada de cinema, as filas dão volta na praça de alimentação. Quarta-feira: dia de desconto nos ingressos em Mauá. Desconto + férias + filme pipoca = adolescentes em quantidades industriais. O caos engoliu minhas possibilidades. Sem filme, sem assunto para a coluna. Elementar, meu caro Watson.
Corri para casa, escolhi um dvd dentre os tantos que eu compro e deixo na fila. Opa, outra fila! Esta aqui em casa, dos dvds que aguardam minha atenção, que brigam por serem "prioritários", é uma fila caótica também, também acotovelada, também descompassada.
Antes que fosse tomado pelo sono e pela preocupação do despertador pela manhã, coloquei o "Alô, Alô, Terezinha!", o documentário sobre o Chacrinha realizado por Nelson Hoineff que eu havia postergado quando em circuito, cuja versão em dvd já estava ficando soterrada na estante. Se o caos estava vencendo a batalha do dia, vamos então ao mestre do caos.
O filme é mediano, mas a experiência é para lá de válida. Não entendi bem se era uma forma de homenagem ao personagem documentado, mas a edição não tem pé nem cabeça. Parece uma colagem de trabalho colegial. As imagens são concentradas num curto período, a maioria das quais de 1982, e não me perguntem o por quê. Dá para imaginar as dificuldades de pesquisa encontradas por documentaristas brasileiros, peneirando entre tapes mofados e películas ressecadas, material mal arquivado e memória nacional negligenciada. Mas não era mesmo para falar do caos em pessoa?
O som do filme é mal ajambrado. Tudo bem que os arquivos utilizados não ajudaram em nada. Mas o que dizer sobre o som direto dos testemunhos gravados em 2007? Alguém explica? Talvez o nobre leitor já tenha visto nos youtubes da vida a cena hilária do cantor romântico Byafra sendo abalroado por um para-pente. Não viu? Veja agora e, por favor, volte ao texto. A cena que você acabou de ver é um dos bons momentos do filme. E, evidentemente, foi sem querer. Mas precisava mesmo gravar de frente para o vento? O ovni ataca o Byafra e o vento atravessa os ouvidos da platéia.
Mas Chacrinha é uma delícia quando revisto. A falta da "qualidade" pretendida pela televisão brasileira, atropelada pelos desconcertos do velho guerreiro, ao largo de terem inspirado as deficiências do filme, no original são impagáveis. Aquilo que em outros apresentadores - principalmente no Faustão - pode parecer arrogância ou pura falta de educação, no Chacrinha era só farra. Buzinar um calouro que nem havia começado a cantar, esculhambar com a platéia, com os jurados e até com os cantores convidados, tudo parece perdoável e natural no Chacrinha. E eu não vou nem tentar explicar, em homenagem àquele que veio para confundir. Goleada para o caos, e eu começo a simpatizar com a causa.
Todavia, o caos não estava mesmo querendo conversa comigo, e não simpatizou em nada com a minha causa. Entre altos e baixos, o filme do Hoineff teve um mérito fundamental: acabei de ver e já queria contar aos bravos leitores sobre as fofocas sobre as chacretes, contadas por elas próprias; sobre o calouro que acha que Roberto Carlos "é um merda"; sobre o tom emocionado com que artistas de todos os estilos falam sobre o apresentador; sobre o depoimento sério do Alceu Valença fazendo um paralelo entre a cultura popular pernambucana e o pernambucano Abelardo Barbosa para, em seguida, cair de novo na galhofa do quem-comia-quem; sobre a inteligência sutil de Rita Cadilac, uma sábia entre deslumbradas; enfim, sobre o Brasil profundo que emerge ao redor do Chacrinha.
Mas o caos acordou antes de mim na quinta-feira e, como eu tinha até sexta pela manhã para entregar a coluna, eu achei melhor escrever com um pouco mais de calma. E eis que, na sexta-feira, a manhã foi atropeada por uma enorme dor-de-cabeça profissional, um episódio daqueles que a gente pede para o mundo parar antes que o pensamento de assassinato começe a se tornar obcessivo. E não havia cebaça para escrever um texto minimamente decente para a coluna, ainda que os cinco primeiros parágrafos que você tenha lido hoje tenham sido escritos logo depois do filme assistido.
Apenas no fim de semana a poeira foi baixando. Poderia ter escrito sobre alguns assuntos que foram vindo em meio à calmaria levemente caótica dos sábados e domingos paulistanos. O estacionamento do Shopping Cidade Jardim, um dos raros lugares do mundo em que você pode ter, no mesmo campo de visão, três Range Rover. Sim, porque nem numa concessionária Land Rover eles colocam tantos Range numa mesma vitrine. Ou a Livraria da Vila, no mesmo shopping, e que é um dos melhores lugares para se estar sem pressa. Ou sobre os preços irreais das lojas daquela parte da cidade. Ou sobre a primeira rodada dos Estaduais, a chuva que está veraneando com hora certa, um musical com o qual eu sonhei, o nome dos jovens jogadores de futebol, um texto do cara da Talent sobre os Brancas de Neve e tantas outras coisas que me passaram pelas vistas e idéias
Mas o Chacrinha, se não mereceu um grande filme, merece a minha e a sua atenção. Veja "Alô, Alô, Terezinha!", nem que seja pelo caos e pela farra.
PS - O interminável caos triunfa
A coluna já estava escrita quando li, pela internet, matéria no O Globo sobre o Nelson Hoineff. Ele está lançando nos cinemas do Rio o documentário "Caro Francis" sobre a vida e obra do polêmico-maior Paulo Francis. Se for lançado aqui, verei.
Dia 11 de feveriero, o mesmo Hoineff lançará, no Canal Brasil a série "As Chacretes". Ainda estão no forno um documentário sobre Cauby Peixoto, um telefilme sobre Agnaldo Timóteo e um filme que se chamará "A Revolução dos Idiotas" baseado em citações do Nelson Rodrigues. E eu só soube de tudo isso depois de escrita e enviada esta Sobretudo. É ou não é o triunfo do caos?"
PS - O interminável caos triunfa
A coluna já estava escrita quando li, pela internet, matéria no O Globo sobre o Nelson Hoineff. Ele está lançando nos cinemas do Rio o documentário "Caro Francis" sobre a vida e obra do polêmico-maior Paulo Francis. Se for lançado aqui, verei.
Dia 11 de feveriero, o mesmo Hoineff lançará, no Canal Brasil a série "As Chacretes". Ainda estão no forno um documentário sobre Cauby Peixoto, um telefilme sobre Agnaldo Timóteo e um filme que se chamará "A Revolução dos Idiotas" baseado em citações do Nelson Rodrigues. E eu só soube de tudo isso depois de escrita e enviada esta Sobretudo. É ou não é o triunfo do caos?"

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