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terça-feira, 7 de junho de 2011

Branca de Neve, versão atualizada



Retomo hoje a série, com a história da Branca de Neve e os sete anões. Divirtam-se - ou não - e lembro que tudo não passa de uma grande gozação.

Branca de Neve

Era uma vez, em um reino não muito distante, vivia uma linda princesa chamada Branca de Neve. Ela era instruída e educada pelo rei, seu pai, para ser a nova soberana da nação.

Entretanto, ela tinha uma inimiga figadal no palácio: a rainha, sua madrasta, e que esperava assumir o poder após a morte do Rei - que já havia escapado de 27 tentativas de assassinato, por diversos métodos, por diversos grupos. Dizia-se que ele tinha o "corpo fechado".

Em determinado momento, a Rainha deu um ultimato ao Rei: ou ele decidia em que lado estaria ou ela "dormiria de calça jeans" até que ele se decidisse - ou sofresse um golpe de estado. O rei, do alto de sua imensa habilidade política - ninguém se equilibra no poder à toa com tantos inimigos - decidiu que Branca de Neve iria gerenciar uma concessão de minérios na floresta distante.

Branca de Neve partiu em seu jatinho para tomar posse das extensas terras que lhe haviam sido concedidas pelo reino - em português claro, uma espécie de "grilagem oficial". Chegando lá ela contratou uma equipe de trabalhadores "verticalmente prejudicados" que ficaria conhecida como "Os Setecentos Anões".

A vida deste grupo não era fácil. Saíam às seis da matina para escavar o minério de ferro e somente retornavam às vinte e três horas para tomar uma sopa de 500 calorias e descansar em barracões improvisados. O regime de folga era "45 por 1", ou seja, a cada 45 dias de trabalho Branca de Neve magnanimamente concedia 1 de folga.

Eis que um dos "anões", apelidado de "Zangado", em seu dia de folga resolveu procurar o Ministério do Trabalho do reino. Normalmente este somente servia para homologar rescisões, mas havia um sub-chefe do "Departamento de Relações com o Trabalho Forçado" a fim de mostrar serviço e este resolveu levar adiante as denúncias.

Foi um escândalo: o Ministério do Trabalho resolveu processar e multar Branca de Neve por exploração de trabalho escravo dos anões. Além disso libertou-os dos barracões onde eles moravam em condições sub-humanas. O rei quando soube ficou possesso, mas não pôde abafar o caso porque a imprensa do país estava com os pagamentos reais em atraso e resolveu noticiar. O funcionário em questão acabou desaparecendo misteriosamente, o que geraria, mais tarde, à fundação do grupo "Mães dos Anões".

A Rainha ficou radiante, mas também tinha seus problemas: suas maçãs envenenadas, com as quais ela pretendia matar o rei e Branca de Neve foram apreendidas pela Vigilância Sanitária por não terem o selo de pagamento de impostos de classificação de peso e tamanho das frutas. Só que o escândalo não parou por aí: as frutas foram desviadas, vendidas na feira livre e causaram a morte de mais de 200 pessoas. Ou seja, ela também estava encalacrada.

Continuava o calvário da princesa: o "MTSTR", Movimento dos Trabalhadores Sem Terra do Reino, invadiu as terras de Branca de Neve alegando que ela havia "grilado" as terras da floresta e as desmatado para explorar o minério de ferro para exportação. 

Este caso a princesa "resolveu" rapidamente: contratou uma turma de pistoleiros - e no dia seguinte trinta e seis líderes do MTSTR jaziam inertes na região, além de alguns anões que foram como brindes no "programa de milhagem" dos pistoleiros. Obviamente,o caso nunca "foi esclarecido", apesar dos veementes protestos de ONGs internacionais - silenciadas com polpudos patrocínios do reino.

Mas os problemas não cessavam: os bambis que habitavam as terras com apoio da imprensa alternativa processaram Branca de Neve por homofobia. Eles exigiam ser chamados de "cervos da floresta" e não de "bambis". Por outro lado, os anões que restaram exigiam serem chamados de "verticalmente prejudicados", conseguindo na Corte de Haia uma vultosa indenização.

Neste meio tempo o Rei havia conseguido um príncipe para desposar Branca de Neve. Entretanto, sem maçãs envenenadas o príncipe consorte - ou seria "conazar"? - ficou sem função na história. Resultado: fugiu para Amsterdam com seu personal trainer, indo trabalhar como dançarino em uma "cannabis shop" da cidade holandesa.

Neste meio tempo graves protestos passaram a sacudir o reino, reprimidos de forma extremamente violenta pelo governo, com inúmeras mortes. Como ao mesmo tempo o Reino havia descoberto uma gigantesca jazida de petróleo na camada "pré-açúcar" de seu litoral os Estados Unidos ameaçaram intervir militarmente no Reino.

Mas a rainha e Branca de Neve foram mais rápidas: bem naquela máxima de que "inimigo do meu inimigo é meu amigo" as duas se uniram e finalmente, com apoio do Exército, conseguiram dar um golpe de Estado e exilaram o rei no distante reino de Vila Mimosa - onde ele vive até hoje como um bem sucedido e folclórico proxeneta.

A imprensa nativa  - especialmente o jornal "O Merval" - aplaudiu a "solução constitucional" adotada, e Branca de Neve foi entronizada como a nova soberana - com a rainha cuidando dos negócios do reino e concedendo a exploração da camada pré-açúcar aos americanos.

E todos foram felizes para sempre... bom, nem todos: os anões voltaram ao trabalho escravo na floresta...


domingo, 15 de maio de 2011

Era Uma Vez Um País (por Milly Lacombe)


Retomando uma tradição do primeiro aniversário, teremos este ano também um convidado que assina um texto especial e inédito para o Ouro de Tolo.

Ano passado foi o jornalista Marco Aurélio Mello, editor da Rede Record. Este ano, temos a jornalista Milly Lacombe, uma das amizades que conquistei no último ano e que abriu a nossa série de entrevistas,a "Jogo Misto". Graciosamente ela escreveu este post especial,o que muito me honra.

A crônica é uma fábula sensacional sobre os políticos e os juízes de nosso país. Divirtam-se.

Era Uma Vez Um País

Em uma distante galáxia, congressistas de um certo país, localizado em um minúsculo planeta conhecido no universo inteiro por suas temperaturas altas e praias de areias muito brancas, decidiam sobre questão de fundamental importância: se deviam ou não se conceder aumento salarial. 

Quereriam eles ganhar mais? Quereriam ficar mais ricos? Quereriam poder comprar mais carros, mais casas e construir mais castelos? Em votação quase unânime, os congressistas do pitoresco país decidiram, depois de matutar questão tão complexa por longos 15 segundos, que sim, gostariam imensamente de ficar mais ricos. E se outorgaram aumento de 60% sobre vencimentos que já eram excelentes em relação ao salário médio do povo que os elegeu.

O povo, gente simples, de olhos muito pequenos e narizes avermelhados e arredondados, universalmente conhecido por sua passividade secular, nada fez.

Em seguida, congressistas passaram a votar a segunda questão de suma importância. Quereriam eles ser mais belos? Quase que por unanimidade, com apenas um voto contra, escolheram que sim: além de mais ricos, gostariam imensamente de ser mais belos. 

O homem que votou não, famoso por passar horas diante do espelho, estava satisfeito com suas formas faciais, embora andasse desgostoso com a própria altura. Por isso, propôs que votassem, antes de saírem para os quase três meses de férias a que tinham direito, a respeito de serem mais altos. 

Gostariam aqueles ilustres congressistas de, além de mais ricos e mais belos, serem mais altos? E em outra votação relâmpago, decidiram que sim: gostariam imensamente de ganhar altura.

E assim, ficou decidido que os congressistas do estranho país seriam mais ricos, mais belos e mais altos. E que o povo, tão simpático e passivo, pagaria por tudo isso. 

Ao final das votações, abraçaram-se, riram a fartar, entraram em seus carros novíssimos, dirigidos por motoristas contratados com o dinheiro do paupérrimo povo que, em sua maioria, nem carro tinha, e partiram para as férias.

Tudo parecia resolvido, quando, em local não muito distante dali, seres de capas pretas e longas que acompanhavam atentamente a votação no congresso, ficaram ligeiramente revoltados. 

Sabendo perfeitamente que eram mais importantes do que todos os congressistas juntos, e incrivelmente mais importantes do que o povo, acharam uma ofensa tamanho aumento salarial, que acabou deixando o salário dos congressistas muito parecido com o deles.

E começaram a tramar silenciosamente o que fariam para, no retorno das férias prolongadas, se concederem, às custas do povo sempre tão pacífico, aumento significativo.

Enquanto isso, o povo, tendo recebido algumas migalhas salariais de fim de ano, preparava-se alegremente para o feriado prolongado que antecederia o ponto alto da próxima temporada: o carnaval, época em que todos os felizes habitantes desse bizarro país podem se vestir com suas roupas favoritas, as de palhaços."


segunda-feira, 18 de abril de 2011

Teoria da Massa Cheirosa


Semana passada, em meio a uma das reuniões de que participava fiz dois comentários no Twitter a respeito de uma certa "Teoria da Massa Cheirosa" praticada pelos componentes da elite reacionária brasileira. 

Como se diz no subúrbio, meio "à brinca", meio "à vera" desenvolvo mais o assunto neste post. Aviso que é um texto ficcional, mas com toques irônicos de realidade sobre o pensamento de certas classes. Se a carapuça servir não posso fazer nada.

A "Teoria da Massa Cheirosa" ganhou este nome graças ao comentário de uma famosa jornalista de um dos grandes veículos da imprensa decadente deste Brasil, que cunhou o termo para designar os partidários de determinado candidato a presidente no ano passado. Nada muito diferente do Brigadeiro Eduardo Gomes, que em 1950, candidato a Presidente, disse que não queria "o voto dos marmiteiros", em referência à nascente classe trabalhadora industrial. Obviamente, perdeu a eleição - levando uma surra de Getúlio Vargas na ocasião.

A teoria em questão prevê regras de convivência estrita em sociedade de forma a atender os requisitos de todos aqueles que, ainda que a maioria apenas em discurso, passam quatro férias ao ano no exterior, somente se hospedam em hotéis "cem estrelas" e que consideram Dubai a Meca da socieddade moderna. Também frequentam revistas de sociedade e não saem dos Jardins Paulistas ou do circuito "Barra-Ipanema-Leblon" no Rio de Janeiro.

Esta teoria política da mais alta estirpe pode ser dividida em doze pontos principais, os quais reproduzo abaixo. É um guia bastante adequado de vida em sociedade.

Cláusula 1
- todos os pobres que não sejam empregados domésticos deverão ser sumariamente fuzilados - pelo Exército - a fim de tornar "mais bonita" a paisagem. Por "pobre" entendam-se todos aqueles que não moram nos bairros denominados como "dignos" à "República da Massa Cheirosa" e que não tenham um determinado patamar de renda declarada mensal.

As casas dos pobres e todas as edificações destinadas a serví-los deverão ser demolidas. Os terrenos dos subúrbios deverão ser salgados após a demolição.

Parágrafo Único - funcionários públicos, de estatais, jogadores de futebol, negros e índios serão considerados pobres mesmo que atendam aos requisitos para estar na "massa cheirosa".

Cláusula 2 - os pobres preservados a fim de trabalharem como empregados domésticos terão como salário duas mariolas, um vale transporte e um muda de roupa bianual. Deverão trabalhar 20 horas por dia e baixar a cabeça sempre que necessitarem falar com seus patrões através de um biombo. Magnanimamente, os chefes concederão uma dieta diária de 500 calorias aos pobres que tiveram a vida poupada para trabalhar nas casas destes.

Cláusula 3 - não haverão escolas no país. Os filhos deverão ser comprados prontos nos Estados Unidos ou em caso de reprodução nativa então mandados para estudar em centros como Oxford, Sorbonne ou Yale.

Cláusula 4 - o serviço de saúde terá como prioridade a medicina plástica e a biotecnologia. Será feita uma licitação internacional para a escolha de um plano de saúde único aos habitantes do Brasil - e quem oferecer a maior comissão levará o contrato.

Cláusula 5 - os únicos programas sociais serão o "Bolsa Botox", o "Minha Tucson, Minha Vida" e o "Vale Dubai".

Cláusula 6 - todos os bens de consumo serão trazidos do exterior - afinal de contas tudo que é importado é melhor. As importações serão pagas com a receita da venda do petróleo do pré-sal às empresas americanas.

Cláusula 7 - o Judiciário do país terá uma única regra: quem tiver maior patrimônio declarado ganha a causa.

Parágrafo Único - o disposto acima não cabe caso uma das partes detenha segredos importantes do juiz em questão.

Cláusula 8 - A capital do país passa a ser Alphaville e Brasília será transformada em uma "Disneylândia" para políticos corruptos de todas as partes do mundo. O regime político será a monarquia "huckiana" absolutista - em grana. Não haverá Poder Legislativo. 17 de abril será a data nacional, em homenagem ao nascimento do Guia Mestre: Roberto Campos.

Cláusula 9
- as únicas funções do Estado serão convocar a seleção de futebol e assinar tratados internacionais. A mão invisível do mercado se responsabilizará por todas as demais ações necessárias.

Cláusula 10 - os banqueiros sempre tem razão.

Cláusula 11 - a imprensa é livre, desde que publique o que for de interesse dos representantes da massa cheirosa. Chimpanzés serão treinados para atuar nas redações.

Cláusula 12 - todas as questões omissas neste tratado serão resolvidas pela "mão invísivel" mais forte.


terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Chapeuzinho Vermelho, Os Três Porquinhos e a Churrascada


Como os leitores mais atentos deste Ouro de Tolo sabem, tenho duas filhas, uma com quase quatro e a outra com cinco anos.

Uma de minhas grandes diversões nos últimos tempos tem sido contar as clássicas histórias infantis "com um toque de realidade", misturando-as, recriando-as e dando um toque de sarcasmo nos acontecimentos romanceados por Andersen e outros originalmente. O leitor pode pensar que é pretensioso, mas o que eu sei é que elas riem bastante.

Trago aqui uma das histórias que conto para elas: "Chapeuzinho Vermelho, Os Três Porquinhos e a Churrascada". Divirtam-se - ou não.

"Chapeuzinho Vermelho, Os Três Porquinhos e a Churrascada

Era uma vez uma família que vivia feliz em uma casa na floresta. Eram a mãe e duas filhas. Uma delas era chamada de "Chapeuzinho Vermelho", porque sempre andava com um boné destes de marca da cor.

Chapeuzinho Vermelho tinha uma avó que morava do outro lado da floresta, já meio devastada pelos madeireiros, mas ainda bastante frondosa. Uma vez por semana ela levava quitutes preparados por sua mãe em sua motocicleta pelas alamedas do bosque.

 - Chapeuzinho, está pronta ?
 - Sim, mãe, já acabei de me maquiar !
 - Não colocou aquela calça de funkeira não, colocou ? Sua avó não gosta nada disso...
 - Não, mamãe, fica fria...

Chapeuzinho olha a cestinha de quitutes e pergunta à mãe:

 - Acho que a vovó não vai gostar, ela reclamou que há muito tempo não come uma churrascada
 - Faz mal à saúde dela, ela não tem querer
 - Mãe, mãe, ela é sua mãe, não você...
 - Vai, vai, ela deve estar esperando.

A menina pega a cestinha, seu capacete vermelho e o facão - para se defender dos lenhadores e suas motosserras - e subiu na moto para empreender o caminho. De uma casa à outra eram cerca de dez minutos em ritmo moderado. Entretanto...


Chapeuzinho vê à beira da estrada três porquinhos: um grande, outro médio e um menorzinho. Estavam com malinhas com seus (poucos) pertences, pois suas casas de palha, taipa e concreto haviam sido derrubadas a mando do "Choque de Ordem" da prefeitura - estavam em local irregular. Cochillavam após uma longa caminhada e algumas pancadas da Polícia.

A menininha, melhor dizer adolescente, tem uma idéia. Mais rápido que Sebastian Vettel, saca o facão e "zás trás!", os porquinhos, ou melhor seus pernis, lombinhos e carrés já estão devidamente acondicionados em seu bornal. Quando ela acaba de fazer isso, chega o lobo à procura dos três irmãos: a menina o convida para a churrascada que irá acontecer na casa da avó.

O lobo sobe na garupa da motocicleta e acompanha a menina em seu passeio rumo à casa de sua parente. Ele havia se atrasado porque precisou pegar todas as licenças no órgão ambiental para correr atrás dos porquinhos, então acabou chegando atrasado após a demolição das casas deles - as retro escavadeiras da prefeitura eram muito mais rápidas e eficientes. Vale lembrar que a menina avisou ao lobo que se ele ousasse algo contra ela ou comer a carne para o churrasco antes da hora iria acabar no espeto. Ela era braba...

Após o curto percurso, a menina chegou à casa da avó, onde ela e seu marido, o lobo, aguardavam ansiosos com o carvão já quente na churrasqueira. Ao descer da moto, o lobo dos Três Porquinhos e o lobo da história do Chapeuzinho Vermelho se olharam, se reconheceram e gritaram em uníssono:

 - Meu irmão !

Eles haviam sido separados no nascimento por Andersen e jamais haviam se reencontrado. Bom, as lembranças eram boas mas os dois continuavam de estômago vazio...

Abraços de praxe, lágrimas "lobais", tulipas de cerveja esvaziadas e a vovó rapidamente prepara os porcos para a churrascada enquanto bebe caipirinha no gargalo da garrafa e ouve no MP3 player o mais novo sucesso da dupla sertaneja "Tadeu e Tadando".

Após preparados, limpos e temperados os porcos foram às mãos do churrasqueiro, o caçador. Ele havia ficado sem emprego por causa da mais recente lei ambiental e descolava uns trocados fazendo churrascos, virando lajes e abrindo poços artesianos na floresta.

Eles comeram os "Três Porquinhos" assados, fizeram uma grande festa e foram felizes para sempre. Bem, nem todos: pobres porcos..."



terça-feira, 2 de novembro de 2010

Malandragem dá um tempo


Em um post do ano passado do blog, escrevi sobre o TibaNews, aquele que considero o primeiro "blog' brasileiro. Era assinado pelo jornalista Celso Itiberê e eu era um dos colaboradores.

Do grupo que se formou surgiu uma brincadeira em forma de campeonato de kart indoor, que intitulamos de "Fórmula Tiba". Ocorreu nos anos de 1999 e 2000, deixou saudades e chegou a reunir quase 50 pessoas em algumas provas.

O recente comentário sobre o buggy em Barra do Piraí me evocou algumas histórias daquele tempo, e reparto uma com vocês aqui.

Era a terceira ou quarta etapa do campeonato de 2000, na antiga pista do Shopping Nova América - que hoje está no Norte Shopping Tínhamos um grupo de pilotos semi-profissionais de kart, entre  os participantes da brincadeira, obviamente em um nível muito mais alto e que até aquele momento dominava a classificação geral.

Eu não era exatamente uma sumidade, mas o treino somado a uma boa visão tática e a trinta quilos a menos - eu pesava 57 quilos à época - me davam condição de andar no pelotão intermediário na classificação geral e entre os líderes da minha classe, que era a Graduados, intermediária . Eu havia sido campeão da Iniciantes ano anterior e, por isso, subido de grau.

Como não cabia todo mundo junto na pista, fazíamos as baterias com 50 voltas estipuladas - aproximadamente 16 a 17 minutos - e juntávamos os tempos, sempre se preocupando em mesclar as baterias - um piloto em uma chave muito forte daria menos voltas e sairia prejudicado no cômputo geral.

Em minha bateria naquela tarde ficaram dois integrantes deste grupo semi-profissional. Um deles era William Cardia - irmão do grande iluminador teatral Gringo Cardia - e do outro, absolutamente não me recordo o nome.

Só que, como eram karts de aluguel, haviam disparidades, e me coube um verdadeiro "foguetinho". Mesmo sendo muito inferior tecnicamente aos dois, utilizando-se do meu pouco peso, do meu carro e da tática de esperar a pista limpa para dar a volta de classificação coloquei-me na segunda posição do grid, atrás de Cardia e à frente do outro amigo.

Entretanto, eu tinha um problema: levava sete ou oito voltas até encontrar um bom ritmo de corrida. Mantive o segundo lugar, mas cedi a passagem quando percebi que estava mais lento - era uma espécie de "código" tácito.

Como escrevi lá em cima, estava com uma máquina bem mais rápida. Não deu outra.

Umas cinco voltas depois, colei nele, mas, como era acostumado, ele não me deu passagem ainda que eu estivesse muito mais rápido. Atrás dele, eu não tinha muito o que fazer, porque o traçado era travado e estreito e a reta principal, curta. Bastava ele trazer o carro para a linha de dentro e, mesmo sacrificando a primeira curva, eu não passaria sem causar um acidente. As voltas passavam e, muito mais veloz, não adiantava nada.

O leitor leu no início que eu tinha uma visão tática da corrida, não foi ? Pois é, me veio uma idéia na cabeça.

Uma das regras da empresa dona da pista era de que quem estivesse defendendo posição não poderia fazer dois movimentos de trajetória: se trouxesse para a linha de dentro, não poderia voltar para fora - o chamado "zigue-zague". A punição estabelecida é a troca de posição ou, em casos mais extremos, a eliminação da bateria.

O que eu passei a fazer: quando chegava na reta principal, passei a fazer o movimento  de alterar a trajetória com o kart colado no dele e a gesticular para o diretor de prova apontando para o carro da frente, como que dizendo: "ele tá me segurando fora das regras".

Minha idéia, e assumo sem nenhum prurido, era induzir a direção de prova a puní-lo e fazer com que ele me cedesse a posição. O leitor pode até me criticar, mas admito que foi uma idéia calcada em puro pragmatismo - e muito melhor que bater em adversário para ser campeão, como por exemplo fizeram Ayrton Senna, Alain Prost e Michael Schumacher. E não estava infringindo nenhuma regra, era catimba pura.

A cada volta eu mais gesticulava, mais eu apontava para o segundo colocado e para o diretor da prova. Os outros pilotos do lado de fora também pediam a punição - ou seja, tinha "colado" a idéia. Cardia, líder, andava mais lento que eu e poderia ainda tentar alguma coisa se me livrasse do segundo colocado. Mal comparando, era como se eu estivesse esbarrando no zagueiro adversário dentro da área e "desabando" no chão para que o árbitro marcasse o pênalti. E, a bem dizer, pelo menos em duas ocasiões ele alterou a trajetória - tecnicamente uma eventual punição não seria absurda.

Faltando oito voltas veio a ordem para a inversão das posições. Na volta seguinte, sob protestos, ele me cedeu o lugar, e saí voando atrás do líder, que tinha mais ou menos meia pista de vantagem - uns 15 segundos.

Guiando uma barbaridade, marquei as voltas mais rápidas daquela bateria e ainda cheguei ao final colado nele, mas não houve tempo para tentar uma ultrapassagem. Acabei em segundo na bateria, mas com o bom ritmo acabei vencendo a minha categoria e em quarto no geral - minha melhor posição até aquele momento e com a segunda melhor volta de toda a tarde.

O piloto punido saiu do kart ao final reclamando um pouco da "severidade" da decisão, embora admitisse que tinha realmente em uma ou duas ocasiões dado motivo para tal. Mas nada que uma boa cerveja não resolvesse, a amizade estava acima de tudo. Ninguém percebeu a minha estratégia.

Ou melhor, quase ninguém.

Na hora de ir embora, eu sempre pegava uma carona com o Luciano Barcelos, na época vizinho, grande amigo e um kartista dos melhores - sinto falta dele, pois o dia a dia acabou nos afastando. Dentro do carro, retornando, ele vira para mim e fala:

 - Vem cá, Migão, aqui só pra nós... eu percebi que você induziu o diretor de prova a punir o cara e te ceder a posição...

Pano rápido.

P.S. - A foto é da última etapa do campeonato daquele ano, o único registro fotográfico que tenho daqueles tempos. Com apenas duas vitórias em dez etapas na categoria acabei como campeão na Graduados, obtendo o quarto lugar na geral.


quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O Reino dos Pneus


Era uma vez, um reino perdido no meio da Amazônia. Após uma sangrenta guerra com o Brasil, conquistou sua independência e desde então vive sossegado - em termos.

Este novo país possui algumas características diferentes em relação à maioria de seus congêneres: a maioria de casais é homossexual e os heterossexuais são minoria. Há funcionários do Estado que possuem como única função perpetuar a espécie no país. Seus principais produtos de exportação são a madeira e a exportação de profissionais para os carnavais carioca e paulista e, acessoriamente, o Festival de Parintins.

A jornada de trabalho é de apenas 24 horas semanais e o lazer é estimulado. Não há Poder Legislativo, sendo o poder exercido de forma absolutista pela Rainha Augusta Ribeiro I.

Outra característica, que dá nome ao país, é o fato de que todas as construções e utensílios são fabricados a partir de pneus velhos. O Reino importa todos os pneus usados consumidos no mundo, e a partir deles fabrica casas, utensílios domésticos, estruturas para as cidades e tudo o mais que se possa imaginar. O artesanato em pneus é bastante estimulado e outra fonte de divisas para o país.

Pois bem. A maior artesã do reino era a Princesa Consorte Júlia Schumacher, esposa da Rainha Augusta. Filha de alemãs, se apaixonou pela rainha e veio morar no Reino, estando juntas desde a independência.

Seu talento com os pneus era impressionante. Esculturas, arte pura, brotavam dos pneus velhos. Seus trabalhos eram vendidos por uma fortuna nas principais galerias de arte do mundo. Abaixo pode-se ver uma pequena amostra do talento da artista.


Eis que, um dia, a Rainha e Júlia brigaram. Entre puxões de cabelo e unhadas, a Princesa Júlia foi jogada ao calabouço e ali deixada, presa. Ainda sofreu torturas, como assistir durante sete dias seguidos o desfile da Viradouro de 2010 e ouvir durante vinte e quatro horas seguidas o "Rebolation".

A Rainha Augusta Ribeiro iniciou, então, um périplo pelo mundo. Ela dizia que era a verdadeira autora das peças e que deveria receber os recursos provenientes do aluguel e venda das mesmas. Não era nada irrisório: as peças chegavam a valer cerca de trezentos mil dólares, dependendo do tamanho e do trabalho dispendido.

Em cada galeria a Rainha era olhada com descrença. Sua história era de que atribuíra as peças à esposa a fim de lhe proporcionar algum tipo de satisfação pessoal, pois a vida de princesa consorte era muito modorrenta - eventos no Palácio Real, leituras, viagens, compras ilimitadas e sexo. Assim, em um gesto de magnanimidade ela abrira mão da autoria das peças, dando à Júlia a glória mundial.

Com a briga e o divórcio, a Rainha resolvera assumir que era a autora das peças. Entretanto...

Ela não contava com uma ferramenta simples chamada "Google". Os merchants fizeram uma consulta rápida a este site e viram fotos das esculturas e da Princesa Consorte trabalhando na elaboração das mesmas. A Rainha foi desmascarada e as contas bancárias do país no exterior foram congeladas. Com o apoio da Alemanha aprovaram-se sanções em tempo recorde nas Nações Unidas..

Como nos dias de hoje tudo é muito rápido, a notícia se espalhou pelo Facebook e pelo Twitter e rapidamente chegou ao Reino dos Pneus. Foi a senha.

Trabalhadores expatriados retornaram da Cidade do Samba com um exército de índios, egípcios e negros libertados da escravidão nos barracões da Beija Flor, da Imperatriz Leopoldinense e da Grande Rio. Os guerreiros enfim livres, comandados pelo batalhão de carnavalescos, aderecistas e pavões invadiram o país e empreenderam uma sangrenta guerra com as forças leais ao Reino, rapidamente derrotadas - suas armas pneumáticas não foram páreo para os tacapes e os mapas de notas empunhados pelas forças leais à Princesa Schumacher.

A Rainha Augusta Ribeiro I voltou rapidamente ao país, mas não havia tempo. Desceu rapidamente e foi presa por uma portentosa índia, que havia sido estrela do abre alas da escola nilopolitana anos anteriores. Foi levada para o Presídio de Goodyear e, após julgamento sumário, exilada para a Barra da Tijuca.

A Princesa Júlia foi libertada, assumiu o reino e casou-se em segundas núpcias com a índia que prendera a soberana anterior. Seus trabalhos aumentaram grandemente de valor, e seu governo levou grande progresso ao país.

Foram felizes para sempre.

P.S. - Qualquer semelhança com fatos ou personagens reais é mera coincidência.

sábado, 19 de junho de 2010

Sobretudo


Sábado, dia de nossa coluna Sobretudo, assinada pelo publicitário Affonso Romero. Na verdade, hoje a coluna é assinada a quatro mãos, pois a esposa do publicitário, mara da Silva, também assina o texto.

Que é, em minha visão de "editor", continuação do belo texto publicado nesta mesma coluna dia 22 de maio.

Vale a pena a leitura. Bom sábado.

"O SEGUNDO CASAMENTO, SEGUNDO ELA.

Amigo leitor, esta semana eu gastei mais tempo pensando sobre o tema da coluna do que teria gasto para escrevê-la. É que, em clima de Copa do Mundo, eu corria o sério risco de ser redundante como a bola e falar mais e mais sobre futebol.

A primeira questão, portanto, era escolher entre falar sobre o que todos estão falando (mas nem sempre todos querem ouvir, cansados que estão com o tema), ou tentar sair da rotina e ficar parecendo o único lunático sobre a terra que ignora a Copa.

Está certo, na semana passada o tema já foi a Jabulani mas, convenhamos, a bola era só uma desculpa para conversarmos um pouco sobre a vida. Ou, especificamente, uma forma de eu te contar, assim numa aparente despretensão, que estou envaidecido por ter assinado uma coluna dominical em um jornal de grande circulação.

Eu tenho guardada no bolso esquerdo do meu paletó uma listinha de temas sobre os quais eu gostaria de escrever na Sobretudo. É um pequeno lembrete, para que a coluna mantenha o nome e não acabe virando uma Sobre-a-mesma-coisa. Alguns desses temas caducam, de tanto que ficam amarelando no papelzinho. Coisas que eu li na internet, ouvi no rádio ou na tevê, ia comentar e o tempo passa até que percam a pouca relevância que tinham. Ou filmes que eu vi, iria recomendar e, antes disso, saem de cartaz. Ou livros que eu li e já me esqueci dos detalhes antes de resenhar.

Um desses temas que esperam na fila é a cidadezinha de Monte Verde, onde eu passei minha lua-de-mel há menos de um mês. Pensei nisso hoje, ao me sentar para escrever a coluna. Mas as fotos não estão à mão, e eu realmente já preciso delas para não permitir à minha frágil memória deixar passar algum detalhe que eu teria que escrever posteriormente, numa coluna sobre a corrida espacial, por exemplo, e o leitor teria certeza de que eu caduquei de vez.

Mudei o tema novamente para o futebol, com outro enfoque, falando um pouco dos vários erros que eu gostaria de comentar, dentro e fora de campo, da Copa ou da administração esportiva. Mas, antes de chegar à metade, recebi o texto que reproduzo abaixo.

O texto foi escrito pela minha esposa, e me fez retornar aos dias de Monte Verde. Não pedi licença a ela para mostrar para você, leitor. Mas eu fiquei tão tocado pelas palavras dela que talvez ela se convença quando eu disser que foi o meu modo de poupar o tempo de escrever a coluna para ficar mais tempo ao lado dela. Mas, aqui entre nós, não foi só por isso ou por preguiça de escrever que eu resolvi reproduzir o texto dela. É porque eu posso estar sendo acometido de corujice, mas eu sinceramente acho que é ela, e não eu, a escritora da família.

Sendo assim, divido com você as impressões dela sobre se casar de novo, bem como a minha emoção ao ler o que ela escreveu:

“Casar de novo pode ser sua maior vitória.

Meu marido corta o pêlo da barba na pia do banheiro: a pia e o chão do banheiro ganham, toda manhã, desenhos abstratos feitos de pequenos pelos vermelhos que insistem em grudar no meu pé (só ando descalça em casa e sempre termino com coisas estranhas entre os dedos). É tão peculiar que merecia ser instalação da Bienal.

Eu tenho mania de limpeza.

Minha cachorra, toda vez que não posso (ou não quero) dar carinho a ela, em ato de protesto, faz xixi pela casa. Daqueles inspirados.

Ele, até pouco tempo, dizia que cachorro só de longe.

Ele tem um filho, que a cada férias, passa uns dias com a gente.

Eu, até ontem, gostava de visitas a cinco quarteirões de distância.

A família dele é pequena, pai, mãe e filho, por isso adora amigos, muita gente e 500 mil amigos no orkut e afins.

A minha é grande, cheia de cunhados, pimpolhos e agregados, por isso eu tenho tendência à solidão, adoro privacidade

Ele ama shows, futebol  e lugares cheios.

Eu, televisão, livros e se não for estimulada a sair, viro tatu.

No carro, ouve de John Pizzarelli a João Bosco,uma verdadeira confusão.

Eu ouço Nirvana, o Rappa e afins.

Tínhamos tudo pra dar errado. Mas damos certo.

Tínhamos tudo para nem pensarmos em uma vida em comum, mas ambos trazem algo em si que nos fez rir das (aparentemente) problemáticas diferenças e construir uma deliciosa vida juntos: estamos no segundo casamento, ops, no caso dele no terceiro.

A vitória da esperança sobre a experiência? Pode até ser, mas prefiro acreditar que se trata mais de ter aprendido, com o dia-a-dia, que se ater a detalhes dissonantes é um atalho bom à beça pro precipício. Viver com alguém é muito mais do que compartilhar experiências passadas comuns: é ter o desejo quase incontrolável de ter experiências futuras comuns. Não é pensar ter encontrado quem louve tudo o que amamos e odeie tudo o que desprezamos - isso é narcisismo, não casamento. Estar casado é respeitar os maus humores, deixar passar comentários sabidamente imbecis ou atitudes impensadas. É gostar de acordar ao lado (eu que odiava viver grudada), respeitar o desejo de solitude ocasional (e não tomar isso como uma confissão de repulsa). Estar casado é saber a hora de prestar atenção e o momento de se fingir de morto.

O segundo casamento é mais leve, apesar de ambos terem mais carga.

Traz os medos de repetir os erros do primeiro, mas também a vontade de não cometê-los. Aumenta a maleabilidade e diminui a petulância. Dá a dimensão exata do que é compartilhar a vida com alguém - e também a de que a mesma não acaba se essa pessoa for embora. (espero que não!!! rs)

O segundo casamento ri de si mesmo porque sabe que é bem melhor do que chorar ou xingar.

Ele carrega o know-how do primeiro e preserva a inocência do pra sempre.

Jamais me casei pensando em me separar. Não somos obrigados a acertar de primeira, e não é nenhum demérito tentar de novo. Não é nenhum pecado ser feliz, mesmo se a pessoa que viveu conosco ainda acreditar piamente nisso.

O segundo casamento me deu a lição que me fez uma mulher menos encanada e briguenta (com exceção à TPM) e muito mais zen: se ele solta pêlo, bem que eu posso calçar os chinelos.

Ser feliz, no final das contas, não é questão de sorte ou azar. É questão de perspectiva."

sábado, 22 de maio de 2010

Sobretudo


Hoje é sábado, dia da nossa coluna "Sobretudo", assinada pelo publicitário e rubro-negro Affonso Romero. O texto de hoje é especial: além de ser um depoimento absolutamente pessoal do autor, é uma linda história de amor.

Deleitem-se e se emocionem. Vale muito a pena.

Aproveito para parabenizar o casal pela formalização do enlace na data de hoje.

É o amor !!!

“...É o Amor
Que mexe com minha cabeça e me deixa assim
Que faz eu pensar em você e esquecer de mim
Que faz eu esquecer que a vida é feita pra viver
É o Amor
Que veio como um tiro certo no meu coração
Que derrubou a base forte da minha paixão
E fez eu entender que a vida é nada sem você...”


Esses versos do Zezé di Camargo soam simplórios aos mais refinados. Uma música que fala tão diretamente de amor, que usa palavras e formas simples para descrever este sentimento, que é um declaração tão derramada, bem pouco elaborada, quase crua, talvez não tenha atributos para invadir o olimpo das clássicas canções da MPB, que abriga letristas que já trataram do mesmo tema com delicadeza, fina ironia, intensidade, riqueza, contraste e erudição.

Acontece que a música do Zezé (e do parceiro Carlos Cézar, sempre omitido, coitado) tornou-se um ícone da canção popular brasileira e, se não está em nenhum panteão, fixou-se no imaginário do País. Recebeu até um chamego da “self-called inteligentzia” nacional, ao ser regravada pela cotadíssima voz de Maria Bethânia.

Foi o irmão mais velho de Bethânia, Caetano, quem mais vezes resgatou canções do limbo brega - desde Odair José, passando por  Peninha e Marcio Greyck - e traduziu em sua voz a pureza e a simplicidade do amor cantado de forma crua e direta.

Mas foi uma composição própria de Caetano, Sampa, que ajudou a relativizar em mim os eventuais problemas das mudanças que temos que impor às nossas vidas quando queremos realmente buscar a felicidade. O meu problema é que a minha felicidade residia em São Paulo, e eu, no Rio. E hoje, mais de dois anos depois de eu ter superado estes 400Km que me distanciavam da grande metrópole bandeirante, eu devolvo ao Caetano e aos paulistanos o meu jeito de ter aceitado Sampa em forma de releitura:

“Alguma coisa acontece no meu coração
Que dá quando eu cruzo a Paulista com a Consolação
É que quando eu cheguei por aqui já eram outros tempos
São Paulo ditava ao Brasil a mudança dos ventos
E eu vim com a certeza de ter os mais doces momentos
Mas foste um difícil começo, fui pra frente aos tropeços
Apostando na felicidade
E, então, aprendi a chama-la de realidade
Porque és o acerto do acerto do acerto do acerto.”


E foi assim que eu coloquei as tralhas dentro do carro e cruzei a Dutra. Tantas pessoas têm um relacionamento real e buscam um amor de sonho. Eu tinha um relacionamento de sonho e buscava um amor real.

São Paulo, como é sabido, é uma cidade, a um só tempo, mais cosmopolita e mais caipira. Daí que é possível ouvir pelo ar tanto a última tendência das pistas de Ibiza quanto o “É o Amor”. E nem precisa ser a versão da Bethânia, aqui em Sampa se ouve com o Zezé di Camargo mesmo.

Eu conheci a Mara no ano em que “É o Amor” foi lançada e explodiu em sucesso nacional a partir das rádios paulistas. Nunca foi nossa trilha sonora particular, mas era impossível não ouvi-la em todos os lugares.

Teria sido mais simples e direto ter capitulado de vez ao amor que eu senti desde a primeira troca de olhares. Sim, existe amor à primeira vista. (Até então, eu não acreditava.) Nós não nos encontramos: nos reconhecemos. E ardemos numa paixão cuja chama era tão intensa que ofuscava qualquer resto de razão. E isso assusta. Mas se eu tivesse ouvido melhor a música do Zezé... afinal, o primeiro verso é:
“Eu não vou negar que...”

Pois é, eu neguei. E me dei mal. Depois do breve idílio, foram 14 anos sem nenhum contato. Durante este tempo todo, claro que a vida seguiu, às vezes com grandes alegrias, às vezes com dificuldades, mas mesmo nos melhores momentos havia uma sensação de que faltava algo, um querer-de-poço-sem-fundo, uma insatisfação latente. Eu sabia que a vida tinha um sabor a mais para eu provar que eu já havia sentido antes.

Mas depois de ter voltado para o Rio de Janeiro, parecia impossível retomar aquela história. E a vida seguiu na base de fazer do possível o ideal, como quase sempre acontece a quase todos.

Até que eu aprendi na pele o que chamam de mudança de paradigma. A reaproximação que parecia impossível devido à distãncia e ao tempo, tornou-se novamente viável. É que no tempo do “É o Amor” não havia internet. Passou a existir, não só a internet como principalmente o Orkut.

E assim, espantados, descobrimos que o que um sentia, o outro havia sentido sincronicamente, apesar de tempo e distância. E que, mais que lembranças, ainda havia paixão nos corações de ambos. E que o ‘É o Amor” ainda fazia sucesso.

A primeira troca de e-mails já deu sinais de que havíamos seguido em caminhos paralelos, um em cada calçada, em lados opostos da mesma avenida. O reencontro seria inevitável, e aconteceu numa cena cinematográfica, no saguão do Aeroporto de Congonhas, sob o olhar espantado de uma vaquinha colorida da Cow Parade.

Depois, a dificuldade de retomar uma relação que havia sido interrompida abruptamente, costurar de novo a confiança, fazer da paixão uma coisa sólida e concebível na vida de cada um. Superar os senões e, principalmente, os tais dos 400Km de Dutra. Até que a saudade foi mais forte que o juízo, e aqui estou eu há dois anos.

A história só não teve um final feliz exatamente porque não teve um final. É uma história feliz, continuamente feliz. É A história da minha vida, e ela continua acreditando que também é A história da vida dela.

Hoje, sábado, precisamente no momento em que o leitor estiver lendo este meu texto (por favor, contribua, leia às 10 da manhã), eu estou casando com a Sra. Mara Silva. Bem, já estávamos casados faz tempo. Mas estamos agora assinando uns papéis, tornando oficial nossa vontade de viver uma vida em comum até passar a saudade destes 14 anos longe um do outro. E, pelo jeito, uma vida vai ser pouco para nós.

Diz a piada popular que o segundo casamento é a vitória da esperança sobre a experiência. No nosso caso, é a vitória do amor sobre as circunstâncias. E a vitória do simples sobre todas as profundas considerações e ponderações que poderiam ser feitas, e que certamente nós fizemos. Até que um dia, eu coloquei tudo no carro e dei um salto no escuro. E o medo virou vontade, e as dúvidas viraram certeza. E hoje, amigo leitor, é o dia de celebrar esta história. Hoje é o dia de comemorar, porque é o dia mais feliz da minha vida.

E já que começamos a coluna com uma música romântica, permita-me concluir com uma mensagem bastante pessoal. Se você quiser, bravo leitor, tome emprestado também a letra abaixo e dedique-a a alguém especial. Se for alguém que realmente mereça, acredite, vale à pena até cantar no ouvido.

É só fazer, como nas melhores canções de amor, da maneira simples e direta. Diga bem baixinho no ouvido da pessoa amada:

Mara, esta é pra você (por favor, use outro nome, caro leitor). E cante desafinado mesmo:

“Você foi o maior dos meus casos
De todos os abraços o que eu nunca esqueci
Você foi dos amores que eu tive
O mais complicado e o mais simples pra mim.
Você foi o melhor dos meus erros
A mais estranha história que alguém já escreveu
E é por essas e outras que a minha saudade
Faz lembrar de tudo outra vez.
Você foi a mentira sincera
Brincadeira mais séria que me aconteceu
Você foi o caso mais antigo
O amor mais amigo que me apareceu
Das lembranças que eu trago na vida
Você é a saudade que eu gosto de ter
Só assim sinto você bem perto de mim outra vez.
Esqueci de tentar te esquecer
Resolvi te querer por querer
Decidi te lembrar quantas vezes eu tenha vontade
Sem nada perder.
Você foi toda a felicidade
Você foi a maldade que só me fez bem
Você foi o melhor dos meus planos
E o pior dos enganos que eu pude fazer
Das lembranças que eu trago na vida
Você é a saudade que eu gosto de ter
Só assim sinto você bem perto de mim outra vez.”

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A fábula do cachorro sem dono


Uma vez havia um cachorro. Destes de rua, vira-latas.

Comia as latas de lixo que revirava. Vagava pelas ruas, assombração terrena neste mundo cão. Sobrevivia.

Seu sonho era ganhar um afago, um carinho. Andava, latia docemente, buscava agradar e fazer agrados, abanava o rabinho. Mas sempre era tratado a paulada por aqueles a quem tentava se aproximar. Sofria.

Caminhava pelas ruas, olhar dócil e ao mesmo tempo de tristeza infinita. Tentava, se esforçava para tal, andava e olhava e sentia. 

Quando olhavam para ele, sempre buscavam a imprecação: "sai daí ! Some! Vou te dar chumbinho!" Mal sabiam que a solidão e a carência eram piores que qualquer veneno que o matasse fisicamente.

Um dia, após muito caminhar pela vida de cão, recolheu-se ao banco de praça que lhe servia de abrigo. Perto dele havia uma bela morena moça, fazendo seu exercício cotidiano.

Para nosso cão nada parecia que seria diferente.

Entretanto, a morena moça olhou para o cachorrinho. Contemplou-o. Viu que atrás de um cachorro de rua havia um coração entristecido e endurecido pelas pauladas nossas de cada dia. Contudo, naquele olhar canil percebeu um coração pronto para se conquistar e oferecer um prêmio majestoso.

A moça o chamou. Nosso cão olhou, desconfiado. Afinal de contas, quantas pauladas recebera ?

Mas ela o chamou de novo, com uma doçura na voz que derreteu o gelo do canino coração. O vira-lata se permitiu um rasgo de esperança e atendeu ao apelo.

Como recompensa, pela primeira vez em sua "vida de cão" ganhou um afago e palavras doces. A moça o pegou no colo e, a partir dali, tudo seria diferente.

Ganhou veterinário, uma cama, um lar. Acima de tudo, pôde amar e ser correspondido pela jovem.

Esta, solitária e triste, descobriu uma razão de viver naquele cãozinho fiel, dulcíssimo e sempre com um sorriso à espera de sua menina. O amor sempre vence.

A moça e seu cão foram felizes para sempre.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Histórias do Carnaval

Bom, como prometido semana passada, hoje ao invés da já tradicional "Samba de Terça" conto algumas curiosas histórias de bastidores dos desfiles.

1 - O macacão do negão


Essa me contaram semana passada.

Portela, desfile de 2009. O destaque que viria no carro da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano simplesmente deu "piti" e, alegando ter uma queda de pressão, disse que não subiria no carro.

Estabelece-se um impasse na concentração. Sugere-se colocar uma das composições no alto do carro, mas prontamente se descarta a idéia - a escola perderia pontos.

Eis que surge um baita de um negão, daqueles armários três por quatro, com o macacão da "ala da força" - como são chamados os empurradores de carros. Ele vira para o destaque e ordena:

 - Você vai subir ?
 - Não sei, eu to com uma queda de pressão..
 - Então me dá a tua roupa que eu vou desfilar no teu lugar. Perder ponto é que a escola não pode.
 - Mas...
 - Me dá !

Feito isso, o componente da ala da força simplesmente tirou o macacão dos empurradores na frente de todo mundo e ficou nu ali mesmo para vestir a roupa do destaque.

Foi um "Deus nos acuda": a mulherada e a turma homossexual ficaram em polvorosa querendo avançar nele. Até Zezé di Camargo, vendo o tumulto que se formava, chegou perguntando o que se passava.

 - Me dá a roupa ! - ordenava, nu em pelo
 - Mas...
 - Mas nada ! Você não passou mal ?

O destaque pegou a roupa e entregou ao agora ex-empurrador, que vestiu e desfilou feliz da vida.

No final do desfile soube-se que ele viera de Brasília para desfilar e, na falta de fantasias, acabou pagando por uma roupa de empurrador. E desfilou como destaque de luxo...

2 - "Eu sou Boi ! Eu sou Boi !"


Desfile do Grupo de Acesso B, terça feira de carnaval, Marquês de Sapucaí.

O Boi da Ilha do Governador - agremiação do qual hoje sou diretor licenciado - como o próprio nome indica possui um simpático boi como seu símbolo. Entretanto, os torcedores e simpatizantes da escola são chamados de "boiadeiros" - até para evitar a incômoda relação com o termo "boi", associado a cornos.

Pois é. As frisas neste desfile normalmente são ocupadas por uma turma que fala de carnaval oi ano inteiro, principalmente via internet. Mais alguns agregados e dirigentes ou associados das escolas. É uma grande confraternização.

Eis que antes do desfile da agremiação insulana um cidadão, camisa da escola, enche o peito e começa a gritar repetidamente, batendo no símbolo da escola em seu peito:

 - Eu sou Boi !!!! Eu sou Boi !!!!!! E quem não é ?????

Há testemunhas.

3 - O desfile para a Candelária


Esta também ocorreu no mesmo desfile do Boi da Ilha.

A Ala do Cacique de Ramos (foto, ao fundo) foi quase toda distribuída para membros de uma das listas de discussão por e-mail.

Só que faltaram alguns pares de sapato.

Um dos cidadãos da lista foi para a concentração de tênis e não havia sapato para ele. Resolveu não desfilar e, ao invés de acompanhar a escola, resolveu dar a volta por trás da Sapucaí.

Só que ele havia esquecido do canhoto do ingresso. Resultado: teve de dar uma volta de mais de três quilômetros, descalço, sobre asfalto, pedras e urina. Com a quarta feira amanhecendo, deu uma longa caminhada pela Presidente Vargas, direção Candelária, até voltar às frisas.

Só que tinha outro problema: ele estava sem o canhoto do ingresso. Precisou que uma boa alma fosse lá e o resgatasse.

A situação foi tão patética que chegou a dar entrevista a um mendigo, que perguntou se o Cacique de Ramos ainda sairia naquela manhã de Quarta Feira de Cinzas...

4 - Harmonia ou Flanelinha ?


Essa é do mesmo ano de 2009, mas é da União de Jacarepaguá, também do Acesso B.

Eu havia conseguido junto a meu concunhado uma camisa de "Apoio", que na prática é uma forma de um "bicão" desfilar sem ter de usar fantasia. O homenageado do enredo era o grande Paulinho da Viola.

Eu estava no Setor 1 esperando a ala onde estavam minha cunhada e o dito cujo em questão para acompanhá-los quando, umas três alas antes, uma diretora da escola vira pra mim e fala:

 - Ei você ! Tá vendo esta ala aí ? Faz a Harmonia dela e não deixa embolar com a ala da frente !

Para quem não conhece, "Harmonia" é o setor da escola que prima pelo canto da escola e pela organização das alas.

Pois é. Eu nunca havia desfilado como Diretor de Harmonia antes, mas até que dei conta do recado - apesar do lesado que, não sei porquê, colocaram na ponta da fila. Entretanto, o gestual exagerado de que me utilizei para me fazer entender pelos componentes parecia que tinha saído diretamente do primeiro ano da faculdade de flanelinhas...

A escola ainda salvou um sétimo lugar.

P.S. - O desfile foi delicioso, a propósito.

5 - Remédio para insônia


No mundo do samba, a Acadêmicos de Santa Cruz já possui o folclore de sempre fazer desfiles muito chatos, tendendo ao sono.

Ano passado, no Acesso A, com o atraso do desfile a escola, penúltima a desfilar, entrou na avenida já com o dia claro.

À medida em que a escola passava - em especial após a rainha de bateria de então, Renata Santos - as pessoas nas frisas iam sucumbindo a Morfeu e cochilando, dormindo... Diria que mais da metade dos bravos resistentes dormiu a sono solto quando da passagem da escola.

Eu ainda tinha a desculpa de ter passado mal no dia anterior e praticamente não dormido, mas vi muito "rato de quadra" dormir embalado ao som de "vaaaaaaaai meu saaaaaaamba..."

Este ano a escola é de novo a nona a desfilar. E sem Renata Santos, agora na Mangueira. Vai ser melhor que Lexotan.

(Fotos: Fabrício Gomes, Sambanet e Waleska Migão)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

De volta ao centro

Desde ontem, faz parte de minha rotina algo que há quase dez anos não me ocorria: trabalhar no Centro da cidade.

Devido a uma transferência (que está dando um rolo danado, mas os detalhes são impróprios para o horário) agora dou expediente no prédio sede da Cia.

Trabalhei no Centro do Rio entre 1995 e 2001, quando trabalhava com rating bancário. Depois passei um ano em Bonsucesso, outro desempregado e os demais dividido entre o Maracanã e o (argh!) Estácio.

Evidente que ontem foi somente o primeiro dia, mas o feérico movimento próprio da alma do lugar ainda me perturba bastante. Acostumado com o ritmo bem mais lento dos bairros em que me encontrava, confesso que estava uns cinquenta quilômetros por hora mais lento que as pessoas em volta.

Tudo possui sua alma. No Centro do Rio, a estátua viva observa a vida do lugar emoldurada. Passam o executivo apressado, o funcionário público a cumprir suas tarefas, as secretárias trocando impressões da vida  cotidiana. Entretanto, este espírito vive em eterno clima de Fórmula 1, apressado e aproximado sentimento de urgência e de que tudo irá se acabar. Mais rápido, mais rápido, mais rápido.

Acho que ainda irei me demorar um pouco para viver nesta frequência. A adaptação demora, mas ocorre. Por outro lado, estou feliz em sair de um lugar que pode ser o futuro, mas é um presente árido, para um assentamento com toda a estrutura em volta. Folgo em saber que não precisarei mais pegar o meu carro todo dia para almoçar, como ocorria anteriormente.

Aos poucos me acostumo.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Da série "peça de ficção": 35 mil doletas

Da série "se perguntarem se aconteceu, nego".

Alguns anos atrás a segunda divisão do samba do Rio tinha entre suas integrantes escolas que possuíam um passado de glória entre as grandes do carnaval, inclusive com títulos.

Isso tornava o retorno ao Grupo Especial bastante disputado, até porque naquela época a diferença da subvenção entre a primeira e a segunda divisão era muito, muito maior que hoje.

Também naqueles dias de um passado não muito recente o presidente da entidade organizadora da "Segundona" controlava com mão de ferro o corpo de jurados. Com isso, possuía um certo poder discricionário sobre o resultado final do desfile.

Era mais ou menos outubro do ano anterior. O presidente em questão começa a fazer um périplo pelas escolas favoritas do grupo fazendo a sua "proposta". Primeiro vai na escola que se afirmaria como favorita, que estava neste grupo depois de muitos e muitos anos entre as grandes:

 - Quero US$ 35 mil pra tua escola subir de grupo!

O mandatário da escola, que atendia pela alcunha de "Tubarãozinho", replicou:

 - Não preciso pagar, vou subir [de grupo] na moral !
 - Ok.

Então o dono do júri se dirigiu a outro presidente, de codinome "Carão", cuja escola até campeã da Primeirona fora, e repetiu a proposta. Recebeu um "passa fora" desaforado.

A terceira opção era uma escola não tão badalada, mas que sempre era muito forte neste grupo. Contudo havia um empecilho: a agremiação em questão abriria o desfile, o que sempre gera uma chuva de notas baixas.

Ainda assim a negociação foi feita. Combinou-se que que a escola teria a nota máxima em todos os jurados de todos os quesitos.

Acertos deste tipo costumam ficar em segredo, até porque não são evidentemente da regra do jogo - é imoral, no mínimo, combinar resultado. Só que o 'capo' da agremiação beneficiada deu com a língua nos dentes - e antes do Natal todo mundo que se interessava minimamente por este desfile já sabia quem "ganharia" e qual o valor envolvido.

Tubarãozinho, quando soube, tentou "cobrir" a oferta. Só que recebeu uma "banana" de volta. O pagamento já tinha sido até gasto.

Chega o dia do desfile. Me recordo que puxei a minha namorada da época - hoje esposa - desesperado para não perder a primeira escola. Queria ver ao vivo a pantomina.

Para azar do dono da entidade organizadora, a agremiação "vencedora" fez um desfile apenas razoável; a escola do presidente Tubarãozinho fez um desfile antológico, que brilharia até se passasse no grupo especial. Outra escola, não citada antes aqui, também fez desfile sensacional calcada nas idéias de revolucionário carnavalesco - que nos dias de hoje prega o segredo a todo custo.

A apuração seria cômica se não fosse uma pantomina. Tubarãozinho e Carão empreendiam uma sinfonia de palavrões em rede nacional a cada nota máxima que a 'campeã' recebia. Contudo, o resultado previamente acertado foi mantido - com nota dez de ponta a ponta para a escola que havia pago os 35 mil dólares.

Mas, se me perguntarem se este fato aconteceu na vida real, eu nego peremptoriamente.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Crônica: Encontro Marcado

"Lagoa Rodrigo de Freitas, Rio de Janeiro. Sexta feira à tarde. Trânsito engarrafado, como de hábito, em direção ao Túnel Rebouças.

Carlos estava pensativo em seu carro popular, embora bem equipado. Parado no trânsito, lembrava-se do caminho que percorrera até ali. Fora casado e trocado por um famoso jogador de futebol, advindo o divórcio daí. Beirando os trinta anos, possuía um bom padrão de vida e uma filhinha.

Imaginava quão rotineira havia sido a sua vida nos últimos tempos. O trabalho em uma empresa transnacional, os cuidados com a filha, a religião. Pouco sobrava para a leitura e a música, suas paixões. Coração, o que é isso ?

Imerso em suas divagações e imerso em um mar de carros, Carlos repara em uma jovem moça, dentro de um carro francês preto. Jovem, branquinha, cabelos negros e óculos de grau, aparentemente bem vestida, vidro semi-aberto e falando ao celular. Bela moça, pensa ele.

Nosso amigo desvia o olhar para trocar a faixa do CD e, quando volta a subir os olhos por trás das lentes também míopes, percebe a moça acenando para ele:

 - Você viu ?
 - Não, o quê ?
 - Roubaram o meu celular enquanto estava falando ! Esta cidade não tem jeito !
 - Podia ser pior, pelo menos você está bem.
 - Eu estava falando, veio o garoto e arrancou de minhas mãos - disse enquanto enxugava as lágrimas.

Nosso personagem imediatamente pensou que ela havia dado bobeira em deixar os vidros abertos, mas o trânsito andou um pouco e ele nada disse.

Poucos metros à frente, pararam os dois carros lado a lado. Ele pergunta:

 - Está tudo bem ?
 - Sim, está. Obrigado por ter se preocupado.

Os carros andam, entram no túnel. Nosso amigo ficou pensando em quão bela era a moça.

Mais tarde, no sinal que dá acesso à Rua Mariz e Barros, na Tijuca, Carlos olha para o lado e quem ele vê ? O Peugeot preto. Ele buzina, abaixa o vidro e o diálogo é rápido:

 - Olha quem está me seguindo ! - e abre um sorriso.
 - Está indo para onde ?
 - Tijuca.
 - Eu também !

E, para surpresa dele...

 - Roubaram o meu número, mas grita o seu. Antes que o sinal abra...
 - Ok. 9...

O sinal abriu e os dois carros seguiram a mesma direção. Carlos entrou antes na rua em que morava. A moça seguiu pela Mariz e Barros em direção à Praça Saenz Peña.

***

Domingo, final da tarde. Carlos já havia deixado a filha na casa da avó e estava pegando a cerveja para acompanhar mais uma peleja dominical quando o telefone toca:

 - Alô ?
 - Por um acaso, é o moço do sinal de trânsito, na sexta feira ?
 - Sim, ele mesmo.
 - Pois eu sou a menina do Peugeot. Muito prazer, Gabriela.
 - Carlos, prazer.

O papo seguiu e combinaram de se encontrar em um shopping das proximidades ainda naquele final de domingo. Ao chegar no shopping e encontrar uma vaga, ao manobrar coincidentemente o carro dela estacionava na vaga ao lado.

Conversaram bastante naquele início de noite. Descobriram que trabalhavam com diferença de apenas quatro andares em um único prédio, que compartilhavam a mesma profissão e religião, bem como a paixão pela leitura. Ela era mais nova que ele, entretanto.

Despediram-se e, no dia seguinte, ele telefonou-lhe chamando-a para almoçar. Sem que combinassem, ele apareceu com um grande bouquet de rosas vermelhas e ela, com um livro. No final daquele almoço, o primeiro beijo.

Algum tempo depois, a primeira noite. Para surpresa dele, para Gabriela era a primeira noite de sua história.

Seis meses depois estavam morando juntos e, dois anos, nascia a pequenina Luisa.

Uma linda história de amor, com um lindo final feliz.

Precisamos de mais finais felizes em nossas histórias."

sábado, 17 de outubro de 2009

Crônica: teatro na escola

Bom, é final de semana, e temos aqui mais uma crônica. Hoje um pouco diferente, porque é uma história real. Alguns detalhes aqui e ali podem conter imprecisões - lá se vão 21 anos - mas é uma história real.

Em 1988, eu fiz a oitava série, que era a última do antigo Primeiro Grau, como bolsista no Colégio Anglo Americano, na Barra da Tijuca. Era no tempo em que a Barra era quase deserta, ainda. A Avenida das Américas, onde ficava - e fica ainda hoje - o colégio, era quase um ponto isolado, junto com o suprermercado Freeway, naquela imensidão.

Segue o texto:

"O ano era 1988. A série, oitava, última do antigo Primeiro Grau.

A professora de português na volta das férias de julho propôs uma peça teatral sobre o folclore brasileiro. Eu havia feito confusão quanto à data do retorno e voltei apenas uma semana depois às aulas.

Quando voltei, a peça já estava mais ou menos escrita, com os seus papéis. Surgiu um impasse, porque eu era considerado um dos melhores em redação e, com a vaidade peculiar somada à imaturidade dos 13 anos exigi que fizesse parte da equipe redatora.

Havia ainda outro problema: como eu era bolsista e demorara a retornar, acreditaram que eu havia desistido e simplesmente eu era o único aluno sem quaisquer participação na peça teatral. Explico aos mais novos: naqueles tempos telefone era artigo de luxo, como eu não tinha aparelho em casa simplesmente não havia como me contactar.

Pois bem: ainda tentei forçar uma situação escrevendo em tempo recorde na velha máquina de datilografar uma outra peça - sobre escolas de samba! Óbvio que sequer foi vista...

Negocia daqui, negocia dali, marcou-se uma reunião no sábado seguinte para que eu visse o texto e desse algumas sugestões. Fez-se a reunião e escrevi algumas (pequenas) alterações, aceitas.

Entretanto, preciso ser justo: embora meu nome tenha aparecido como um dos autores, ao lado da Patrícia Moretzohn (filha de autora de novelas e, hoje, autora da novela Malhação, da Rede Globo), o texto é dela. Na prática, minha participação no texto é cosmética.

A peça contaria a história da capoeira como resistência cultural dos escravos ao domínio imposto a eles. Olhando retrospectivamente, não deixa de ser irônico ver adolescentes bem nascidos, praticamente todos brancos, contando a história dos negros...

Talvez como um prêmio de consolação deram-me um papel pequeno, mas fundamental na estrutura: eu era o escravo que morria a chibatadas no tronco, fato gerador do aparecimento da capoeira na peça. Tinha uma única fala, mas... 

A história era dividida em dois atos: o primeiro era a revolta dos escravos e sua repressão, e o segundo contava o surgimento da capoeira. Era até muito bem escrita.

Nos ensaios, eu ainda voltava no segundo ato como um dos escravos da roda de capoeira ao final, mas depois fui persuadido a não voltar: afinal de contas, estava morto e não pegava bem mortos voltarem para o mundo dos vivos. Duro era explicar isso para um garoto de 13 anos que já se achava inferior aos colegas e que tivera negados todos os seus pleitos...

Originalmente, meu papel tinha duas falas, mas uma foi cortada durante os ensaios. A menina que fazia o papel de feitora (preconizando os tempos modernos) era a Fernanda, uma já naquela idade alta e bela moça. Ela estava sempre com um chicote, mas, obviamente, apenas fingia que batia. Eu deveria estrebuchar igual a um porco no matadouro, morrendo sem dar um pio - acho que foi por isso que me tornei um economista...

Nossa roupa era uma calça de um tecido rústico branco e eu ficava sem camisa na peça. Era (extremamente) magro, embora não usasse ainda óculos, e a calça ficava um verdadeiro balão de gás em minhas pernas. Paciência...

Após exaustivos e, confesso, divertidos ensaios chegou o dia da apresentação. Não me lembro se foi aberto ao público externo, mas tinha muita gente naquele dia no auditório do colégio. Todo mundo nervoso, eu dando de ombros - quase não participava mesmo... só me aborreci porque a calça que me coube ficou parecendo aquelas vestimentas de palhaço.

Chegava a ser engraçado ver aquele monte de jovens, brancos e praticamente todos de classe alta ou média alta (adivinhem quem era a exceção) fazendo papel de escravos.

Inicia a peça, a história vai se desenrolando. Fernanda estava bonita de roupa de feitora  - antecipando os tempos vindouros de dominação da mulher - e chapelão de caubói.

Enfim acontece o meu minuto de fama efêmera - não eram quinze ? Sou levado por outros colegas ao tronco e vem Fernanada para executar a pena. Digo a minha fala e...

Ela resolve bater de verdade. Uma, duas, três, várias chicotadas. Eu gritando de verdade e a platéia indo à loucura. Penso que foi um dos minutos mais longos da minha vida.

Dei graças a Deus quando a cortina baixou.

Sinceramente até hoje não sei se ela se empolgou com o público e quis dar realismo à cena ou se acabou errando no fingimento e acertou de verdade.

Desci para a coxia, intervalo para o segundo ato, muito aborrecido. Estava com as costas completamente vermelhas e, confesso, muito puto. Minha vontade era trocar de roupa e ir embora, mas fui dissuadido a ficar. Da coxia, acompanhei o segundo ato.

Voltei ao palco, ainda vermelho e com dor, para os aplausos. Tudo correu excelente na apresentação e fomos muito elogiados. Acho que eu era o único a não sorrir. Nem dava, estava com uma dor...

Pelo menos ganhei um pedido de desculpas e um beijinho de Fernanda. Para um garoto pobre e feio como eu, era a glória. No final, tudo acabou bem.

Hoje recordo com saudade, mas custei a ficar contente na ocasião. Ainda mantenho contato ocasional com alguns colegas de turma, principalmente através do Orkut - algo que me deixa muito satisfeito. Principalmente porque, hoje, não fico nada a dever a nenhum deles. Venci.

Quanto à chicoteadora, perdi completamente o contato. Nunca mais vi. Entretanto, acredito que continue uma bonita e inteligente moça, como era."

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Página Virada



Como escrevi em post anterior, sábado era dia de acertar contas com o passado. E isso me motivou a largar o conforto do pay per view e voltar ao Maracanã, apenas pela segunda vez este ano - a outra ocasião tinha sido a final do Ruralito contra o Botafogo.

Antes, bastante trabalho: shopping, levar a esposa e as filhas em Ipanema e, aí sim, rumo ao Maracanã.

Cheguei por volta de cinco e dez, estacionei no prédio da Petrobras próximo e rumei à bilheteria. Pouca gente, mas com um "curral" para a compra de ingresssos que, em um jogo mais cheio, vai dar problemas. Sábado foi rápido.

Encaminhei-me para as cadeiras azuis e uma surpresa: pela primeira vez em 30 anos, não vi um único ambulante nas cercanias do estádio. Mais um efeito da operação choque de ordem. Aliás, concordo que se deve disciplinar, mas, uma vez mais, se pune apenas quem trabalha.

Outro ponto negativo, mas que falarei em outro post, é a proibição da venda de cerveja nas cercanias e dentro do estádio. Caso clássico de "tirar o sofá da sala."

Cheguei às cadeiras inferiores e ainda vi boa parte do segundo tempo da preliminar, América e Cardoso Moreira, pela Segundona aqui do Rio. Vitória do América.

Aproxima-se o início do jogo e eu estava bem nervoso. Eram cinco anos de espera. Além disso, tal qual 2004, o Santo André ganhou o sorteio e inverteu o lado do campo. Detesto quando isso acontece.

O time facilitou meu coração. Fez um gol logo no início e manteve-se no ataque. Porém logo recua e a hora em que o adversário pressiona... cai a luz de parte dos refletores e jogo interrompido. Na volta, pênalti e segundo gol.

Intervalo. A vingança está se consumando.

No início do segundo tempo, o time sente o esforço do primeiro tempo e os efeitos da balada constante, cai um pouco o ritmo. Mas, aos poucos, retoma o controle do jogo, com boas atuações de Petkovic e Zé Roberto - chamado o tempo todo de "Zé Boteco" pela torcida.

Final de jogo, lançamento primoroso de Rafael Galhardo - grande promessa - Pet bagunça os adversários e Zé Boteco, no rebote, fecha a conta e passa a régua: três a zero. A Nação estava vingada.

Saída tranqüila, ainda abasteci o carro no Posto Escola, chegada sossegada em casa. O oposto de 2004.

Certos jogos não valem títulos, mas alcançam tal patamar para o torcedor. São Paulo em 82, Fluminense em 86 e Fortaleza em 2005 estão neste caso, só para citar jogos onde eu estava no estádio. Sábado entrou neste rol. Finalmente, me sinto vingado daquela maldita noite.

Ainda quebrei um tabu de quatro anos sem ver o time vencer ao vivo em Campeonatos Brasileiros, desde o citado contra o Fortaleza. Tá certo que foram três jogos, mas... as vitórias que vi foram em outras competições.

Página virada.